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“Se uma vez fosse eu vestindo a camisa rubro negra? Se uma vez o nome gritado no Maracanã fosse o meu? Se uma vez o gol do título fosse meu? Se uma vez o nome da vez fosse o meu? Se em um ano, eu fosse à revelação do campeonato? E se no outro, eu fosse o artilheiro? Se eu fosse o ídolo comparado a Zico? Se apenas uma vez, eu fosse o responsável pelo choro de alegria da torcida? E se um dia eu pudesse comprar uma casa nova para minha família? Se uma vez eu vestisse a amarelinha? Se uma vez eu fosse Vinicius Junior, Paquetá ou Vízeu? E se eu fosse por apenas uma vez Flamengo?”

O uso do verbo “fosse” permite duas interpretações: como flexão de “ir” ou de “ser”, ambas na primeira e terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito do subjuntivo. No verbo “ir”, significará um movimento passado e não concluído. No “ser”, um estado ou condição hipotética.

Os meninos que sonhavam com o status de jogador profissional de futebol conjugavam as aspas acima - criadas por mim, mas facilmente enquadrada na realidade de quem sonha - na flexão do verbo “ser”. Criavam em suas cabeças, como todo sonhador, as imagens dos dias, das situações e dos lances em que o sonho se tornasse real. A ousadia do sonho permite até mesmo trocar o “e se eu fosse jogador?”, pelo “e quando eu for jogador?”

O sonho, como qualquer que se preze, era grande, mas já podia ser experimentado na realidade. Aqui vale o trocadilho: o sonho estava no Ninho. Estava ali, sendo alimentado e preparado para a realidade do voo, enquanto olhava aqueles que já estavam no alto. Diego, Everton Ribeiro, Diego Alves… Mesmo que como em um ensaio já era possível experimentar ser por “uma vez Flamengo”.

Em um instante, as possibilidades hipotéticas do “ser” transformaram-se em um “ir” interrompido. O sonho já em parte real e que, metaforicamente, podia estar sendo sonhado naquela noite foi arrancado quando ainda estava no ninho. E se o calor do fogo pudesse ser substituído pelo calor do Maracanã lotado?

É cruel pensarmos na frieza com que a morte veio de encontro com os sonhos daqueles meninos. Se é possível vermos alguma poesia nesta crueldade, por uma vez os meninos que queriam ser jogadores foram Flamengo e foram - de “ser” e de “ir” - até o fim.

Para nós - enquanto torcedores daqueles que sonham -, cabe experimentar aquilo que era apenas uma hipótese poética de hino de futebol: “Eu teria um desgosto profundo / Se faltasse o Flamengo no mundo”. Hoje faltam dez!

13 de Fevereiro de 2019

Por Vicente Alves