Qualquer viagem é uma grande experiência apenas porque, lá onde vou, encontro o que não encontro na minha própria terra. Se todas as culturas fossem iguais, viajar seria tedioso – e inútil. Mas também, não importa quão maravilhosa seja uma viagem, sempre chega um momento em que nós desejamos deitar em nossa cama, usar nosso banheiro, abrir nossa geladeira. Nós gostamos de experimentar as diferenças, eventualmente, o que faz bem; mas amamos a rotina, o hábito, o padrão. Isto nos define: a inteligência, diferencial humano, funciona basicamente reconhecendo padrões.

O discurso moderno sobre tolerância tem um erro crasso: ele não sabe o que é tolerar. Tolerar é prima-irmã de “suportar” ou “aturar”, o que supõe desagrado. Eu não posso tolerar aquilo de que gosto, menos ainda aquilo que sou – o que seja igual a mim – não porque seja intolerante, mas simplesmente porque isso não é tolerância.

O ideal de tolerância, da forma como se apresenta, é um inimigo da diferença – a mesma que ele alega defender. Isso porque, em vez de valorizá-la, ele tende, na verdade, a aboli-la. Para que haja respeito ao diferente é necessário – pasmem – que nós permaneçamos diferentes. E é muito preciso respeitar as diferenças: a diversidade é um patrimônio da humanidade.

Um exemplo concreto: só se pode falar de respeito à religião do outro se ela é diferente da minha, do contrário, eu estaria falando de respeito à minha própria religião; pois bem, se a tolerância, tal qual ela é entendida hoje, for levada aos últimos termos, todos pensaremos que “não importa religião, importa fazer o bem” ou “todas os caminhos apontam para um mesmo Deus” (esta última, um absurdo que não sustenta um minuto de crítica), e teremos todos a mesma “religião” – nenhuma diferença a tolerar.

É a isso que se conduz todo “debate” de ideias, opiniões e crenças atualmente: ao encontro de interseções entre ideologias, filosofias, religiões – em suma, visões de mundo – diferentes. Isso seria ótimo, não fosse o fato de que, ao mesmo tempo, se tenta jogar fora as zonas não comuns, porque elas são problemáticas demais, geram constrangimento, é melhor esquecê-las – é preciso maturidade para discordar sem odiar, e esta não é uma das maiores virtudes do nosso tempo. E vamos assim: na tentativa de conciliar “os diferentes”, vamos procurando as similaridades e deixando as diferenças de lado: “preto, branco, amarelo: não importa, somos todos humanos”. E fica de lado tudo aquilo que é único em cada etnia e cada cultura a ela associada.

A “tolerância” moderna é um tiro no pé: ela evita lidar com nossa dificuldade de tolerar, apela às semelhanças e alimenta nosso “corporativismo”.

“Tenha empatia” – outra palavra da moda, desfigurada – “e se coloque no lugar do outro”. Não, obrigado. Pelo menos não da maneira como se entende “se colocar no lugar do outro” hoje: assimilando suas opiniões como minhas, evitando discordâncias a qualquer custo. Se eu preciso pensar como o outro, sentir como o outro, para respeitar o outro, eu não respeito o outro: respeito a mim mesmo. Fosse mesmo possível tal assimilação do outro – e não é – não haveria aí um pingo sequer de virtude.

Digo que “fosse possível” pelo seguinte: a tolerância (em nível pessoal) e o globalismo (sua versão macro) modernos são, simplesmente, desumanos no sentido estrito do termo. A exigência deles é que se abra mão da própria identidade em favor de ser “tudo”, diluindo-se no todo, assimilando às diferenças até que eu nem possa mais chamá-las assim. É a igualdade levada à última das consequências: a homogeneização absoluta. Mas alguma coisa da nossa identidade sempre permanece, persiste, incomodamente para os idealistas da “tolerância” e da “igualdade”.

Gostaria ainda de comentar porque associei tolerância e globalismo. De passagem já disse que este é a versão em escala mundial daquela. O início do texto (sobre viajar) não era mera metáfora: é real, há um esforço por homogeneizar culturas. A atitude que se prega em nível pessoal é também uma questão de geopolítica: aceitar a cultura do outro, os costumes, as leis. Tudo conduzido na direção da abolição das diferenças. As “fronteiras reduzidas” do nosso tempo não deveriam ser celebradas: são elas, as fronteiras, que permitem que cada um possa continuar tocando sua vida como bem entende. Não é uma questão de nacionalismo ou supremacia: é que somos assim, nos congregamos, estabelecemos regras (padrões) que tornem a convivência possível e nos desesperamos – porque é mesmo péssimo – quando essa ordem é abalada.

Esta última ideia é importante também pelo seguinte: até aqui, tratei apenas daquelas diferenças pautadas em valores relativos, estabelecidos por convenção, de acordo com as circunstâncias de cada pessoa e cada país. Fica para outro texto enveredar pela discussão espinhosa da moral universal (matar, roubar, estuprar, por exemplo, são atos maus, não importando a “cultura”). Apenas deixo o seguinte comentário: a tolerância – a verdadeira – é de fato importante, mas ela não pode ter, jamais, o primeiro lugar na escala de valores, sob pena de que a verdade seja subjugada pelo erro, “tolerado” com a desculpa de respeito ao diferente.

17 de Outubro de 2019

Por Gustavo Lima