Religião e política, até onde se tocam?

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A religião é algo que permeia a sociedade e mesmo com o seu aparente enfraquecimento na modernidade ela permanece exercendo forte influência no imaginário social. No campo político, a religião é um dos agentes que pauta debates e interfere no posicionamento da população.

Nos últimos anos, após a redemocratização, o Brasil viu nascer correntes políticas motivadas em grande medida pelo cristianismo. Os cristãos são maioria no país, representando cerca de 90% da população, e a atuação política de seus representantes religiosos tem sido fundamental para os rumos políticos brasileiros.

Nesta reportagem, você vai ver como a religião influenciou a ascensão política de Jair Bolsonaro. Representante da “bancada da bala” no congresso e em constante diálogo com a bancada evangélica, o atual presidente baseou sua campanha em pautas morais e no discurso antipetista, o que gerou a identificação de parte dos cristãos com sua candidatura. Estes fatores de certo modo, acabaram gerando uma divisão entre os fiéis, visto o apoio de parcela dos cristãos aos governos petistas.

O contexto, a eleição e os 100 primeiros dias de governo

Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, restabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil.

A corrupção, os privilégios e as vantagens precisam acabar. Os favores politizados, partidarizados devem ficar no passado, para que o Governo e a economia sirvam de verdade a toda a Nação.

Tudo o que propusemos e tudo o que faremos a partir de agora tem um propósito comum e inegociável: os interesses dos brasileiros em primeiro lugar.

Discurso de posse de Jair Bolsonaro

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A insatisfação com os governos petistas, as manifestações da população nas ruas em 2013, as mobilizações através das redes sociais, o impeachment de Dilma Rousseff e a alta reprovação de seu sucessor Michel Temer, todos esses fatores encadeados formaram o cenário político brasileiro pré-eleição. Como resultado, o Brasil viu nascer uma nova direita que, até então, permanecia restrita a movimentos desorganizados e a bancada cristã no Congresso Nacional. O emergir  do pensamento liberal-conservador organizou-se ao redor de uma figura que o representaria, o agora presidente Jair Bolsonaro.

A vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018 está estritamente ligada aos movimentos populares e à organização política da nova direita nos anos anteriores. No entanto, por trás destes três fatores estão presentes alguns pilares responsáveis pela sustentação do bolsonarismo: a movimentação ideológica liderada pelo pensamento de Olavo de Carvalho e seus seguidores na esfera cultural e com algumas interferências diretas; a base militar provinda da própria origem de Bolsonaro quanto capitão reformado do Exército; e uma parte considerável das lideranças cristãs.

Ao completar 100 dias no poder, podemos identificar que as características desta tríade de sustentação continua a se manifestar, apesar da resistência do presidente em dialogar com os meios de comunicação tradicionais. Como exemplo, a ocupação de espaços no governo por parte dos chamados “olavetes” e o discurso anti-comunista; o nacionalismo - marca da relação com os militares - expresso através de medidas como a exigência da execução do hino nacional nas escolas; e a defesa veemente de pautas que são caras aos cristãos como a proibição do aborto e a ideologia de gênero. Esses são apenas alguns exemplos explícitos da presença destes grupos, mesmo que indiretamente, nas atitudes do atual governo.

Afinal, ele não foi eleito?

Por mais que seja claro a influência na eleição de Bolsonaro de grupos e instituições de relevante importância na sociedade, não podemos deixar de lado a identificação com o seu discurso. Afinal, Bolsonaro foi eleito com 55,13% dos votos, o que equivale a cerca de 57 milhões de cidadãos que o consideraram como uma melhor opção dentre os candidatos. Se levarmos em consideração o primeiro turno, onde existem mais possibilidades de escolha, Bolsonaro teve relevante vantagem e por pouco não foi eleito ainda na primeira volta.

O perfil do discurso adotado por Bolsonaro enquadra-se ao perfil de confiança do povo brasileiro. O crescimento da confiança nas igrejas cristãs e nas Forças Armadas vem sendo uma constante em diversas pesquisas, no entanto, cabe destacar aqui os números da pesquisa anual do Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil). Realizada pela Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em 2017, período em que o nome de Bolsonaro começava a aparecer na mídia como possível candidato à Presidência, a pesquisa aponta que a população confia mais nas Forças Armadas e nas igrejas do que na imprensa e no STF.

Os altos números de confiança nas Forças Armadas decorre principalmente dos mais jovens. Segundo o Datafolha, 45% dos brasileiros com 16 anos ou mais confia muito nas Forças Armadas, e 35% confiam um pouco.

Já a confiança na Igreja Católica pode ser explicada pelo fato de a maior parcela da população se declarar católico, cerca de 65%. O Censo Demográfico de 2000 a 2010 apontar uma queda considerável no número de autodeclarados católicos, o grupo que mais cresceu foram os protestantes. No entanto, o Brasil permanece com cerca de 90% da população se autodeclarando cristã.

O elevado número de brasileiros autodeclarados cristãos também nos ajuda a explicar o posicionamento da população em relação às pautas dos costumes. Uma pesquisa do Instituto Datafolha de 2018 aponta que 59% da população é contrária a qualquer mudança na legislação atual sobre o aborto.

Em relação a ideologia de gênero, o Paraná Pesquisas em 2017 entrevistou 2.365 pessoas e fez a seguinte pergunta: "A teoria de que uma pessoa pode escolher o próprio gênero deve fazer parte do currículo escolar?” O resultado foram 87% das respostas sendo negativas e apenas 8,4% positiva. 4,4% dos entrevistados não souberam opinar.

 

Se levarmos em consideração o perfil conservador da população brasileira em comparação ao aspecto político dominante dos últimos 20 anos encontramos uma dicotomia. Os sucessivos governos progressistas e a ausência de partidos e candidatos com relevância no cenário eleitoral demonstram a ausência de representabilidade no que tange às pautas dos costumes. Se acrescentarmos a isso a crise econômica brasileira e os mais de 11 milhões de desempregados ao final do governo Dilma passa a ser fácil entender o aumento da popularidade de um candidato com um discurso conservador em relação a moral e com pautas liberais que vão no sentido oposto do antigo governo.

A relação do atual governo com a religião

A relação entre Bolsonaro e os cristãos geralmente é identificada pelo conservadorismo em relação aos costumes. No entanto, o movimento conservador tem diversas faces em sua história e, no Brasil, em especial, apresenta características bem específicas. Por exemplo, se compararmos os movimentos leigos católicos do início do século XX perceberemos uma nítida diferença no discurso conservador de hoje.

O sociólogo Alessandro Garcia, para ilustrar essa diferença, descreve a postura dos intelectuais que formavam o Centro Dom Vital, um dos maiores expoentes do conservadorismo católico no Brasil do início do século XX.

O Centro Dom Vital tinha como objetivo o diálogo no meio intelectual, formando uma intelectualidade capaz de defender os princípios cristãos. Isto fazia do seu discurso uma matéria pautada no debate e aberta a discordâncias no seio do próprio movimento. Seu objetivo localizava-se no campo cultural, promovendo questões em relação a educação, a arte e tecendo críticas de forma ampla ao campo político. Não havia uma sistematização de propostas para o meio político.

A diversidade de ideias e a ausência de um movimento organizado uniforme dentro do aspecto conservador dificulta a sua definição. No que se refere aos costumes a Igreja e seus fiéis leigos apresentam uma postura, via de regra, uniforme. Porém, em relação à política, vozes dissonantes eram comuns mesmo dentro da ala conservadora.

Outro fator, referente à própria identidade brasileira, dificulta a concretização de posturas conservadoras na política. O fenômeno que convencionou-se chamar, pelas palavras de Nelson Rodrigues, “complexo de vira-lata”. A defesa da tradição como conhecimento adquirido de forma orgânica pela sociedade é o princípio do conservadorismo, ou seja, a história tem papel fundamental. A visão que o povo brasileiro tem sobre sua própria história entendendo-a de forma negativa torna a política brasileira mais afeita a ideias desenvolvimentistas.

Se estas eram características do conservadorismo católico no século XX, outras tantas foram agregadas e deram outra cara ao ideal conservador. E foi sobre esta nova onda conservadora - e até certo ponto, também religiosa - que Bolsonaro se elegeu.

O laicato católico em torno do Centro Dom Vital preocupava-se em criticar o impacto da modernidade nos princípios fundamentais judaico-cristãos e que são basilares na formação do Ocidente. Segundo Alessandro, sua crítica abarcava toda a modernidade desde o comunismo até o liberalismo, o que não significa um anti-modernismo puro e simples, mas uma visão crítica das mudanças impostas à sociedade. Hoje, os novos conservadores apoiam-se em certas bases modernas para ocupar espaços no meio político, como na caso de Bolsonaro. O atual presidente, ao mesmo tempo em que defende posturas condizentes com o conservadorismo religioso no campo dos costumes, busca uma identidade liberal ao atrelar sua imagem com figuras como a de Paulo Guedes. Bolsonaro tornou-se  a representação política do discurso da nova direita que se diz “conservador nos costumes e liberal na economia”.

Alessandro aponta estas mudanças no conservadorismo católico brasileiro:

A relação de grupos religiosos - aqui entende-se cristãos como um todo, católicos e protestantes, pois no campo moral suas crenças são similares - com Bolsonaro explica-se por esse atrelamento da pauta dos costumes com o liberalismo econômico que promete o maior desenvolvimento do país em crise. Além disso, há o discurso veemente contra a corrupção, alimentado pela Lava Jato - operação da Polícia Federal que descobriu o maior esquema de lavagem de dinheiro do país. Em relação aos costumes, seu discurso não abrange toda a moral cristã, ficando atrelado apenas a pautas pontuais, o que ficou claro nos primeiros 100 dias de governo.

Dois temas são defendidos veementemente pelo governo  de Bolsonaro: a criminalização do aborto e as pautas identitárias. Neste início de governo, apenas as questões identitárias estiveram em pauta como no caso do “meninos vestem azul e meninas vestem rosa” protagonizado pela ministra Damares Alves e pela denúncia a depravação moral feita pelo próprio Presidente em seu Twitter no caso no “golden shower”. Outras questões como o debate no STF sobre a criminalização da homofobia contribuíram para as discussões no cenário público, o que não aconteceu com o aborto.

Ainda há outras pautas que ao longo da campanha foram personificadas pelas narrativas usadas por Bolsonaro que envolvem de forma indireta os princípios religiosos, como o Escola Sem Partido e do combate à corrupção. Mesmo  não tendo a defesa da moral cristã como principal motivador de certa forma dialogam com princípios religiosos.

O outro lado da moeda

Foi uma experiência positiva, sobretudo por se tratar de um programa voltado a erradicar a miséria e superar a fome dos mais pobres. Contudo, no meio do caminho o governo decidiu substituir um programa de caráter emancipatório, o Fome Zero, por outro, bom, mas de caráter compensatório, o Bolsa Família. Como discordei da mudança, voltei a ser um feliz ING – Indivíduo Não Governamental. E como assessor da Presidência aprendi que o poder não muda ninguém, faz com que a pessoa se revele.

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Frei Betto fala sobre sua participação no governo Lula - entrevista para o Canal Paz e Bem 

A influência da religião no cenário político contemporâneo não é uma novidade trazida pelo fenômeno Bolsonaro. Antes mesmo das eleições de 2018 a Bancada Cristã vinha crescendo progressivamente no Congresso, sendo a principal representação religiosa no meio político. Cabe destacar o protagonismo dos congressistas de origem protestante, que foram os principais responsáveis pelo crescimento da Bancada.

A Bancada Cristã exerce uma influência direta na política nacional pois atua de dentro do legislativo formando um grupo de pressão que visa a defesa das pautas morais. No entanto, outros fenômenos influenciaram a política brasileira de forma indireta - entenda-se como indireta a ausência ou pouco expressividade no campo dos cargos políticos. De acordo com o historiador Wesley Mello, a Teologia da Libertação, que despontou no Brasil na década de 1970, ocupou papel fundamental no crescimento dos partidos progressistas no país.

A Teologia da Libertação nasce após um período histórico conturbado. Após as atrocidades das grandes guerras do início do século XX e ainda com as mudanças promovidas pela modernidade em todos os aspectos, a humanidade passa a desacreditar que a fé cristã seja a resposta. Neste contexto, a Teologia da Libertação surge na América Latina como a teorização da práxis dos novos tempos. Uma teoria que reinterpreta a fé cristã descolando-a do transcendente e aproximando-a do corriqueiro, encontrando terra fértil em um continente que sofre pela miséria e pela ausência das condições básicas de sobrevivência.

No Brasil, o seu crescimento se dá no auge da Ditadura Militar. Em meio ao fechamento político do governo, ganharam força os grupos de guerrilha que lutavam em defesa do proletariado e buscavam a instituição de sua própria ditadura. Neste período, representantes emblemáticos da Teologia da Libertação - como os Dominicanos Frei Betto e Frei Tito - encontraram nos ideais dos guerrilheiros e na luta armada uma forma de atuação política em favor dos mais pobres. Assim, aliaram-se a figuras como Carlos Marighella, fundador da ALN (Ação Libertadora Nacional), atuando como base de apoio para a guerrilha urbana.

A ação política deu-se também na organização de grupos de atuação social criados a partir dos anos 1970, que ficaram conhecidos como Comunidades Eclesiais de Base (CEB). Seu papel consistia na reunião de grupos por sua proximidade territorial e em torno das pautas comuns àquele meio. Guiados pela Teologia da Libertação, as CEB´s espalharam-se pelo país permeadas por um discurso religioso, mas, na visão do historiador Wesley Mello, na prática o cerne das comunidades era outro:

As CEB’s possibilitaram a atuação popular na luta por melhores condições de vida, mas sempre a partir de uma ótica comunista. Com isso, esta passou a ser uma das principais características da Teologia da Libertação: a reconciliação da fé cristã com a esquerda, que por vezes apresenta faces anti-cristãs, e a politização da fé esvaziando-a do seu sentido transcendente.

A multiplicação das CEB´s pelo país passou a desenhar o imaginário político dos mais pobres. Com a redemocratização e o recente trauma causado por uma ditadura de direita criou-se a impressão popular de que só um governo de esquerda poderia salvar os mais pobres. Isso fez com que os partidos de esquerda, como o PSDB e o PT, crescessem. O Partido dos Trabalhos deve seu crescimento diretamente às CEB’s, que viram no partido a possibilidade de atuação direta dos mais pobres no poder. Wesley explica esta relação.  

A Teologia da Libertação passou a ser questionada e combatida nos anos 1980 e 1990 por papas e teólogos devido as suas contrariedades em relação a fé cristã. Figuras como João Paulo II e Joseph Ratzinger - posteriormente Papa Bento XVI - foram adversários intelectuais da corrente latino americana apesar de considerarem sua relevância para o continente.

No campo teórico, a batalha foi vencida pela tradição católica que apontou as falhas teológicas e finalizou de forma simbólica o debate com o afastamento do teólogo da libertação, Leonardo Boff. Entretanto, as marcas da Teologia da Libertação permaneceram na Igreja da América Latina. No Brasil, a forte influência em seminários em décadas passadas permaneceu e formou padres e bispos. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) apresenta ainda hoje alas que são acusadas por leigos e clérigos de alinharem ao pensamento da Teologia da Libertação.

As palavras de Bento XVI, em 2009, dirigidas a bispos brasileiros sobre as deixam claro o posicionamento da Igreja em relação a Teologia da Libertação após três décadas de debate:

 

Política e fé segundo a Igreja

A Igreja é consciente que se, por um lado, a via da democracia é a que melhor exprime a participação direta dos cidadãos nas escolhas políticas, por outro, isso só é possível na medida que exista, na sua base, uma reta concepção da pessoa. Sobre este princípio, o empenho dos católicos não pode descer a nenhum compromisso; caso contrário, viriam a faltar o testemunho da fé cristã no mundo e a unidade e coerência interiores dos próprios fiéis. A estrutura democrática, sobre que pretende construir-se um Estado moderno, seria um tanto frágil, se não tiver como seu fundamento a centralidade da pessoa. 

Congregação para a Doutrina da Fé

 

sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política

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Como vimos, os interesses dos cristãos estarão invariavelmente presentes na política brasileira. O caráter democrático e laico do Estado assegura este direito. Ou seja, não deve haver preferência por ritos e crenças, mas deve ser proporcionada a voz a todas as expressões religiosas. Além disso, o fato de a maioria da população se autodeclarar cristã aumenta a pressão na defesa de determinados ideais. No entanto, algumas instituições religiosas promovem limites para esta atuação por reconhecerem a diferença fundamental nas matérias da fé e da política.

As Igrejas de matriz protestante, por sustentarem diferenças na interpretação do cristianismo, não possuem um consenso em relação ao posicionamento do fiel em relação à política. Ao mesmo tempo que igrejas neopentecostais estimulam a participação direta de seus membros, inclusive pastores e lideranças, as igrejas tradicionais - luterana, anglicana etc - apresentam uma postura mais cautelosa.

A Igreja Católica tem um posicionamento fechado e orientações específicas sobre estas questões. Há também a chamada Doutrina Social que prevê princípios para o desenvolvimento saudável da sociedade a partir da ótica cristã, mas sem o comprometimento com projetos de poder específicos. O especialista em Teologia Moral, padre Anderson Alves, ressalta que o O Código de Direito canônico diz que os clérigos não podem assumir cargos públicos ou atividades que  vão contra o seu estado de vida.

Já em relação aos leigos, padre Anderson diz ser um dever a participação como cidadãos e ressalta a veneração a santos que tiveram forte atuação política. Ele salienta os deveres do cristão em meios políticos:

Segundo o padre, a relação com o atual governo e com qualquer outro deve ser pautada nesses princípios. O leigo católico, André da Costa, ao falar sobre o atual governo, ressalta que os princípios da Doutrina Social da Igreja devem ser respeitados e que é papel do cristão “sujar as mãos” para debater e encontrar as melhores soluções para preservá-los.

Por Vicente Alves 

26 de Abril de 2019