Estudante em escola no Maranhão – Avener Prado – 08.ago.2018/Folhapress

Os jornais estão cheios de notícias sobre a precariedade da educação do nosso país. Um monte de índices e indicadores, rankings nacionais e internacionais, que dizem muito pouco à maioria de nós porque são dados fora de contexto; também porque, para uma população pouco instruída, a interpretação dessas informações, mesmo no seu contexto, é difícil.

É preciso ler nas entrelinhas. Precisamos aprender a compreender aquilo que os jornais dizem quase sem querer dizer, mas são obrigados a fazê-lo para fins de contextualização. No espaço de duas semanas, assisti a duas reportagens que não eram exatamente sobre educação, mas me disseram muito sobre ela.


Primeiro, uma sobre a escolaridade das jogadoras de futebol feminino. A reportagem narrava em tom de lamento o fato de que as atletas TÊM QUE ESTUDAR. Você não leu errado. Uma das histórias era a saga triste de uma jogadora da seleção brasileira que cursou engenharia numa universidade americana com bolsa esportiva porque projetava uma carreira para depois de pendurar as chuteiras – aparentemente porque o futebol feminino não paga o suficiente para as mulheres pararem de trabalhar aos trinta e poucos como o masculino. A reportagem lamentava o fato – já disse, mas não canso de repetir.
 

Em outras palavras, as minhas: o problema não é a desigualdade que faz com que uma classe extremamente reduzida de pessoas – atletas do primeiro escalão do futebol masculino – possa se aposentar com milhões na conta antes dos 40 anos, enquanto a gigantesca maioria da população vai trabalhar até morrer. O problema é que um número, também muito reduzido de mulheres – atletas do primeiro escalão do futebol feminino –, não tem acesso a esse privilégio (injusto). E as coitadas tem que estudar! Que martírio. Óbvio, nenhum comentário sobre o fato de que no futebol masculino, a exigência dos clubes faz muito meninos abandonarem os estudos básicos antes mesmo de se profissionalizarem – o que nem chega a acontecer para a maioria.
 

Esta semana, então, vi no jornal uma reportagem sobre os novos ladrões de banco. Agora,
usam métodos sofisticados, tecnológicos, um desafio para as autoridades. No meio de uma
quadrilha presa, um rapaz formado em engenharia – mecatrônica, da computação, não
lembro. É claro que a reportagem, em tese meramente narrativa, não refletiu sobre o fato de esses criminosos são pessoas instruídas, o que contraria a ideia comum de que nas periferias os bandidos são bandidos por falta de escolas de qualidade – não que precisemos de mais exemplos além da nossa classe política e do empresariado brasileiro, e nem é preciso dizer também que tom utilizado para falar desse tipo de criminosos não é o mesmo que se usa para falar dos que vem da periferia. Não reflete mesmo: o repórter conta a história quase como se quisesse perguntar, surpreso, “como pessoas instruídas assim podem cometer crimes?”.

 

O problema dessa reportagem é um princípio ideológico tão entranhado no pensamento
comum dos nossos dias que ninguém, nem o repórter, nem o editor, nem a audiência vão se dar conta: a ideia de que a educação formal é sinônimo de virtude. Em outras palavras, a
crença inconsciente de que diploma é atestado de caráter. A esperança cega de que a

educação vai salvar o mundo. Causa estranhamento e surpresa nos ingênuos que o conhecimento conferido pela educação seja usado para fins escusos como um roubo a banco.


Nós substituímos a educação moral – por sua incômoda relação com valores tradicionais,
família e religião – pela educação formal, científica, quando as duas deveriam andar juntas e se complementarem. E aí esperamos que a ciência cumpra o papel da moral e corrija a
naturalíssima tendência humana ao erro.


Um último exemplo, mais genérico. Quando assistimos àquelas lindas reportagens sobre
projetos sociais em periferias, que tiram crianças e adolescentes do crime através da educação (da ciência, do esporte, da arte), não reparamos que educação, aqui, não é só uma aula de matemática, futebol ou música. É transmissão de valores. Os voluntários, professores, instrutores ensinam respeito, companheirismo, determinação, empatia, honestidade, valor do trabalho. É educação em sentido amplo, aquela que, nos meus tempos de escola, os professores diziam que deveria vir de casa. As escolas e ONGs que tentam fazer as vezes das famílias fazem um trabalho heroico, mas insuficiente – além de estarem em número insuficiente. Você nunca vai ouvir um repórter dizer isso.


Em suma, quando lemos os jornais, o que eles nos dizem sobre educação é: estudar é um mal necessário, que a maioria de nós tem que suportar por não ter dado a sorte de nascer em berço de ouro; mal esse que, uma vez suportado, pode nos ajudar a conquistar o nosso próprio berço de ouro – de forma honesta ou não, você escolhe, só cuidado para não ser pego. Numa frase: para os jornais, conhecimento é meio, moral é obstáculo, dinheiro é fim.

17 de janeiro de 2020

Por Gustavo Lima