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  • Gustavo Lima

Por que todo mundo é tão rude hoje em dia?

O recém-lançado Coringa é um grande filme. Além de ser o primeiro acerto “no alvo” da Warner com as histórias da DC Comics, ele usa de elementos do universo do super-heróis para nos contar uma história que não é de ação, mas “psicológica” – o que é comum nos quadrinhos, mas era raro nos cinemas. Uma de suas principais virtudes é colocar diante de nós uma questão humana de absoluta importância: um homem mau é produto e, portanto, vítima do seu meio?

Trata-se de um filme de origem. O público geralmente já gosta deste tipo de roteiro, mas é ainda mais especial no caso do Coringa porque simplesmente não existe uma versão oficial da sua história. Os filmes anteriores nunca se preocuparam em contá-la (Batman: Cavaleiro das Trevas inclusive brinca, de forma genial, com isso), e nos quadrinhos, existem diversas versões, sendo a de A piada mortal a mais aclamada. Nela, o personagem é um comediante fracassado que se envolve com o crime para conseguir dinheiro e acaba caindo numa mistura química que o transforma completamente. No filme, Arthur Fleck (o Coringa) “cai numa mistura tóxica pior, a sociedade”, como li pelas redes. Não sei se concordo com isso.

“Não consigo entender porque todos são tão rudes hoje em dia”. Num momento crítico do seu processo até o surto – quero dizer que não é um mero “espasmo mental”, mas uma cadeia de eventos que vai gradualmente acentuando a loucura –, o Coringa dispara a frase que expressa o sentimento de muitos de nós. Com isso, o filme parece sugerir que a maldade posteriormente destilada pelo personagem é uma resposta àquela que ele sofreu ao longo de toda a vida. O filme parece portanto querer justificar, até mesmo redimir, a maldade de cada um de nós, tratando-a como consequência do que nos fizeram – transferência de culpa, o que nós, inconscientemente ou inconfessadamente, adoramos.

Mas para bom entendedor, fica claro que o vilão a que o personagem vem a ser pode ter sido despertado pela loucura do mundo a sua volta, mas que a semente da sua própria loucura já estava lá, plantada por sua experiência pessoal.

O Coringa deste filme é um doente mental – no sentido clínico do termo, apenas –, e essa característica é determinante para tudo que acontece com o personagem. Na sua Gotham, milhões de pessoas vivem exatamente nas mesmas condições que ele, mas poucas têm reações do mesmo tipo e certamente nenhuma do mesmo grau que as suas. Mesmo dentro do seu universo, o Coringa é uma exceção, mas como é o protagonista da história, oferece-nos a tentação de tomá-lo como regra, identificando a nós mesmos e as pessoas a nossa volta a ele. Algo como pensar “ele surtou por viver num mundo triste, mau, difícil e egoísta exatamente como o meu”. Um erro: se você regar sementes diferentes com a mesma água, elas serão plantas diferentes; quero dizer, o nosso mundo pode ser também triste, mau, difícil e egoísta muitas vezes, mas o que há dentro de nós é diferente daquilo que há na cabeça de Arthur Fleck. É a sua experiência trágica singular, e não o seu meio comum, que o transforma no Coringa.

A horda de rebeldes que se forma em torno da figura do Palhaço parece provar o contrário. Eu disse que ninguém teve reações do tipo das que o protagonista tem, mas e a multidão de mascarados? Eles tomam o símbolo para justificar sua causa, mas esta é completamente divergente da causa do Coringa – aliás, ele nem tem uma “causa”, não é um revolucionário social, é apenas um homem “surtado” reagindo aos acontecimentos do seu “mundo pessoal”. Seus primeiros assassinatos são tomados como um ato de guerra contra a “burguesia” pela imprensa e pelos revoltosos, que não presenciaram o crime; mas o espectador do filme sabe que se trata de mera violência – sofrida e devolvida – sem nenhum caráter simbólico mais abrangente que o pessoal.

Aquilo que o Arthur Fleck divide com seus concidadãos provoca uma reação semelhante, sim – a violência –, mas apenas na superfície. Na sua profundidade e pessoalidade, ele difere totalmente da “massa” que o adota como símbolo.

Não sei se consigo enxergar o Coringa como uma vítima porque, por piores que sejam as coisas pelas quais o personagem passou, acredito que a sua reação é desproporcional – este filme só nos mostra ele atacando, muito mais gravemente, pessoas que o atacaram um dia; mas nós sabemos que o vilão vai muito mais longe depois, até o gosto pela violência gratuita. Acredito ainda que existe uma consciência, uma centelha de humanidade dentro de nós, que não pode ser extinta, mas pode ser ignorada – o que é mais compreensível quando há muitas “vozes na cabeça” concorrendo com ela, certamente. Mas se admitirmos o Coringa como uma vítima, será da sua própria história pessoal, da singular maldade que o atingiu, não do meio como um todo. No fim, o meio acaba sendo muito mais produto da sua individualidade (assumida pela “massa”) do que o contrário. Aliás, o que é o meio, senão a soma das individualidades? Quero dizer: se a sociedade faz o homem mau, quem faz a sociedade má?

É lugar-comum dizer que uma atitude agressiva é geralmente um mecanismo de defesa, e essa ideia explicaria a violência do Coringa: ele está se defendendo do mundo que o maltratou. Mas se toda agressividade é defesa, de que ataque ela se defende? Uma análise sempre muito “psicanalítica” dos atos humanos às vezes nos eximi de responsabilidade sobre nossos maus atos, como se todos fossem fruto de um inconsciente alimentado por experiências negativas. Como se nós estivéssemos simples e inconscientemente reagindo ao mundo a nossa volta. A violência do Coringa pode ter tido a “sociedade tóxica” como gatilho, mas ela é uma escolha. Como a nossa.

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