Buscar
  • Vicente Alves

Ideologias são inflamáveis

O mundo viu Greta Thunberg, a menina de apenas 16 anos, disparar palavras duras em seu discurso na ONU. Grande parte aplaudiu a defesa enfática das pautas ambientais e, um ponto importante, se emocionou com a jovem. As emoções geradas pelo discurso, tanto na emissora quanto nos receptores, pode nos ajudar a compreender um pouco do “fenômeno” Greta. Deixando claro que tal investida não deve se preocupar tanto em emitir grandes juízos da personagem principal, afinal, o evento em questão diz mais sobre os adultos do que sobre a menina. 

Greta, ainda em sua adolescência, é fruto daquilo que Eric Voegelin chama  de cosmion. O conceito do pensador austríaco refere-se a “um pequeno mundo de ordem” que funciona como “uma analogia cósmica”, ou seja, baseada em seus símbolos e comprometida somente com a imaginação humana, a sociedade cria uma ordem, que se manifesta na história através da política ou do social, para servir como “um abrigo em que o homem possa dar à sua vida algum sentido”. Em tempos de desintegração - momentos em que o “abrigo” é mais necessário - do homem torna-se corriqueiro o surgimento de cosmions. O perigo deste movimento é o descompromisso com a realidade, que facilita a criação de monstros imaginários e a omissão daqueles que são reais. Mas, qual o cosmion de Greta?

O discurso ambientalista criado nas últimas décadas transformou-se em um verdadeiro dogmatismo, no qual há a presença de inimigos, identificados em geral como os grandes capitalistas; uma cultura apocalíptica, que vê o fim se aproximando rapidamente; histeria; um moralismo, bem exemplificado em movimentos como o veganismo;  e a eleição de salvadores, que dão esperança ao cosmion. Todas estas características podem ser encontradas em muitos movimentos sociais, ideológicos, religiosos, políticos e, também, no discurso de Greta, que a elevou na direção do status de salvadora do cosmion ambientalista. 

Nos concentremos agora no “fenômeno” Greta. Eleger uma menina de 16 anos como salvadora é mais do que se deixar render a visão de um dogmatismo nascido do cosmion ambientalista, é também desonesto. É apelar para a criação de uma infantaria - se levarmos em conta a raiz latina Infans, que também dá origem a palavra “infância”, podemos ressignificá-la para algo como “tropa de ingênuos” - para uma batalha ideológica. Este apelo fica claro ao analisarmos o teor do seu discurso, que não apresenta nenhuma novidade ou tese que contribua para o debate, limitando-se a uma retórica emocional que demonstra uma indignação juvenil. Tais fatores não desmerecem sua fala, mas também não a qualifica a ser porta voz dos problemas do meio ambiente. 

A elevação de uma menina a tal posto também é covarde, pois já traz em si um argumento censurador. Quando alguém se levanta para criticar a postura de Greta, o argumento refutatório escolhido é: “mas ela é apenas uma menina!”. No entanto, se a manifestação for favorável, facilmente a pouca idade é esquecida. No fim, o que sobra são apenas os aplausos ou o silêncio descompromissado. 

Afirmar estes fatores não significa negar as mudanças ambientais ou a necessidade de preocupar-se com tais fenômenos. Apenas nos ajuda a entender que parte da realidade é usada para a criação de um dogmatismo alicerçado na imaginação humana e que sua defesa se torna o sentido da vida de muitos, inclusive de jovens como Greta. A questão ambiental, assim como outros movimentos, tomou ares religiosos que devem nos manter alertas. Talvez Chesterton tenha definido melhor essa preocupação quando disse que não é tão preocupante a descrença em Deus, o problema é o que as pessoas colocam em seu lugar.

O discurso de Greta diz mais sobre os adultos, pois é a representação desse cosmion criado por eles e, no qual, ela é apenas um fruto. Greta nasce em uma geração cercada pela criação de pequenos mundos de ordem que insistem em eleger símbolos sagrados que “protegem” a sociedade da realidade e dão sentido para existências vazias. Para ela, sem duvidar da sinceridade de suas convicções, e para os jovens de hoje será necessário a maturidade e experiência, que talvez só venha com os anos, para discernir com clareza a realidade da imaginação. Será preciso maturidade para entender que a Amazônia pode estar sofrendo com o fogo do descaso, mas a ideologia, não importa tanto qual, serve como inflamável. No fim, resta escutar o conselho de Nelson Rodrigues: “Jovens, envelheçam rapidamente!”

1 visualização