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  • Gustavo Lima

Este não é um texto sobre política

Atualizado: 6 de Fev de 2019


Na minha primeira semana como estagiário de Comunicação numa empresa de pesquisa em Engenharia Elétrica, cobri uma palestra sobre a qual não entendi nada — cochilei, inclusive, ao lado da minha supervisora. O efeito da palestra, além do sono, foi me fazer sentir um idiota.

No final, um engenheiro da empresa brincou sobre a dificuldade do conteúdo e agradeceu o palestrante por ter transportado coisas do campo do que "não sabemos que não sabemos" para o campo do que "agora sabemos que não sabemos". Ele não sabe o quanto me tranquilizou.

Fez-me lembrar de, quando criança, achar graça da frase "só sei que nada sei". Custei a entender o que Sócrates quis dizer: o progresso no conhecimento, necessariamente, alarga a consciência sobre a própria ignorância. Ou, mais simples: quanto mais aprendo, mais descubro quão pouco é o que sei. Aprender não é apenas transportar coisas do campo do "não sei" para o "sei"; é transportar coisas do campo do "não sei que não sei" para o do "sei que não sei". Em resumo, quanto mais eu aprendo, mais “sei que nada sei”.


Em nosso momento político, mais que o tom agressivo e as "brigas", o que tem me inquietado é a certeza que todos têm sobre tudo — um monte de certezas absolutas que, não raro, são absolutamente opostas. Certezas essas baseadas em notícias falsas, mas não só: informações incompletas, citações sem contexto, frases de efeito, metáforas toscas, memes, premissas ideológicas, intuição e boa vontade.


Em ambas as direções, os argumentos em geral são tão rasos e acríticos, tão "certos", que cada lado me motiva mais a ir para o oposto, e ambos a sentar no meio-fio e chorar.


Quando não são rasos, são arrogantes. Presunção intelectual é quase tão ruim quanto ignorância. Se a Ciência, em especial a Social, fornecesse respostas prontas, os estudiosos seriam unânimes. Ninguém sabe tudo porque leu muitos livros — seguramente não se sabe nada sem ter lido nenhum.


Até porque, a situação é tão complexa que nem os livros e os especialistas, menos ainda o Facebook e o Whatsapp — só a esquecida e empoeirada bola de cristal seria capaz de fornecer uma certeza absoluta.


Partir do princípio da certeza e não questionar a própria posição implica em (1) concluir que todos discordantes são ou ignorantes ou desonestos, o que equivale a dizer que você é a pessoa mais esclarecida e moralmente perfeita da discussão; (2) abolir a autocrítica, interpretar todas as evidências novas a partir das próprias convicções e fechar-se no círculo do seu conhecimento limitado: impedir toda possibilidade de progresso próprio.


Todo posicionamento faz algum sentido — o que não significa dizer todo posicionamento é bom, muito menos que sejam equivalentes. Há razões para qualquer opção, mas há razões melhores e piores. Refletir sobre elas para descobrir qual o melhor o caminho é o que faz uma mente saudável, e só as mentes saudáveis fazem discussões saudáveis. O difícil é que isso pressupõe sabedoria e humildade para reconhecer a própria ignorância. O problema — citando Betrand Russel — é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as [ignorantes] estão cheias de certezas — ele usa “idiotas”, mas achei pesado.


Como prometido, não é sobre política, mas sobre como se discute politica, ou qualquer outra coisa. O conselho do Aristóteles é o seguinte: "O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete".

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