Buscar
  • Vicente Alves

(Dis)torcer

As imagens da torcida do flamengo acolhendo a delegação ao saírem rumo a tão esperada final da Libertadores são impressionantes a qualquer olhar. Até mesmo aqueles que torcem pelos rivais - ou melhor, no atual momento, torcem contra o flamengo - são capazes de se admirarem, mesmo que veladamente - e é justo que o seja -, com tamanha empolgação. Assistir milhares de indivíduos saírem de suas casas para apoiarem o seu time de futebol em uma ação que não envolve bola ou gramado e ainda sem terem a certeza de ver seus ídolos, pode parecer loucura para muitos. E não me refiro aos rivais, pois esses, mesmo que por trás de chacotas e menosprezos, guardam no coração a certeza  de que ali também estariam se fossem as cores do seu time a protagonizar sobre a América. Refiro-me àqueles que não vivem o futebol. Para esses, tudo é loucura, pois em seus corações não há um sentimento que apoie o inapelável, entenda o incompreensível e até justifique o injustificável.

O técnico rubro negro, um autêntico português, chamaria àqueles que ali estavam de “claque”. Este é um dos termos usados pelos tugas para referir-se a torcida de um clube. Outra opção, seria “adeptos”, que Jesus - o do flamengo - costuma usar com mais frequência em suas coletivas. Nenhum dos dois me agrada. O primeiro tem raiz francesa e refere-se a  grupos contratados para aplaudir peças de teatro. O segundo deixa uma sensação de racionalidade, como se time de futebol fosse uma escolha racional selada em contrato e não uma experiência de arrebatamento que beira a metafísica e torna a adesão quase que natural. Por isso, desconfio daqueles que mudam de time! Enfim, fico com o termo brasileiro.

  A palavra que nós escolhemos é, ao meu ver, mais fidedigna a realidade futebolística e, como de costume, bem mais criativa. A origem do vocábulo “torcedor” não importa, o que aqui tem valor é o causo que está por trás, pois esse gerou uma apropriação que ressignificou o termo. Conta a lenda que grupos de mulheres, ao irem assistir os jogos de futebol, levavam consigo lenços brancos que serviam como itens de comemoração para serem agitados na hora do gol. No entanto, nos momentos de tensão, os mesmos lenços eram retorcidos como forma de extravasar o nervosismo. Ou seja, o item que era o símbolo da excitação de comemorar um gol tornou-se a marca da aflição dos então, por herança lusa, “adeptos”. A partir daí, as mulheres passaram a ser conhecidas por “torcedoras”. Esta é ou não a melhor descrição dos frequentadores de arquibancadas? Caso esteja na dúvida quanto a resposta, lembre-se do último jogo de seu time e contabilize quanto tempo você “torceu o lenço” e quanto o “agitou”. 

O futebol é apaixonante exatamente por isso: ele permite que nos apaixonemos. Daqueles que torcem, não é exigida nenhuma racionalidade, sendo inclusive esse o critério para identificar torcedores. No imaginário da arquibancada, o juiz não pode ter time, pois, se o tivesse, julgaria apaixonadamente e não racionalmente. Esta paixão arrebatadora, e que deve ser cultivada e defendida em intensos debates de botequim, permite até distorcer a realidade para que não destorçam o seu lenço. Não é difícil ver um torcedor supervalorizando conquistas, inventando títulos, negando fracassos, exaltando pernas de pau… para defender suas cores. No entanto, aí não tem nenhum crime. Afinal, apaixonados agem assim, veem beleza onde não há. Se os otimistas valorizam a metade cheia do copo, os apaixonados a defendem como se dali estivesse transbordando um tesouro que só ele vê. 

É de admirar a festa dos flamenguistas. Mesmo não entendendo - como bom tricolor - admiro o ato apaixonado. Mas, quando vi as imagens do Ninho do Urubu não pude deixar de pensar em outra festa de apaixonados: aquela feita pelos que buscaram Lula na cadeia na última semana. Alguns dizem que muitos alí eram claque, outros que eram adeptos, mas me preocupo pela torcida. As imagens mostram uma grande multidão, por coincidência também vermelha, em meio a gritos e cantos apaixonados esperando a saída de seu ídolo. Pena que dessa vez não era um artilheiro ou coisa do tipo. Pena que ali se tratava-se de política e não de futebol!

0 visualização