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  • Vicente Alves

Caiu atirando!

Se o governo Jair Bolsonaro já andava cambaleante em meio a polêmicas e auto boicotes, será difícil caminhar com apenas uma das pernas. A saída de Sergio Moro marca o rompimento com todos, ou melhor, quase todos - resta Guedes e as pautas econômicas -  os compromissos que levaram o bolsonarismo ao poder. Moro sair seria traumático em qualquer circunstância, visto que sua popularidade é maior que a do próprio presidente. Mas não bastou sair, como bom soldado, ele caiu atirando. 

Três promessas sustentavam o governo Bolsonaro das eleições até aqui: reformas econômicas credibilizadas pelo papel técnico de Paulo Guedes; a anticorrupção representada pelo antipetismo e lavajatismo concentrado na presença de Moro e a sustentação de um discurso que promovia Bolsonaro como uma figura ilibada; e a renovação política através da quebra de uma tradição de política de coalizão - troca troca de cargos - representada por um corpo técnico de ministros. Estes princípios, aliados a outros secundários, serviram para eleger o ex-deputado e, posteriormente, foram usados inúmeras vezes como recurso retórico para aliviar as crises sucessivas do governo. 

Em quase um ano e meio de governo é impossível trazermos à memória todas as polêmicas que Bolsonaro e seus apoiadores se meteram. Cada grupo usará um argumento para justificar tamanho talento para confusões. Despreparo, cortina de fumaça, perseguição da mídia… todas essas são possibilidades possíveis e em certa medida verdadeiras se levarmos em conta que o jogo político não se reduz ao preto e branco. Existem mais que 13 e, também, mais que 17 tons de cinza. Mas no atual momento, apenas uma coisa importa: é impressionante como Bolsonaro cavou e entrou em sua própria cova sem ajuda de ninguém!

Digo sozinho, pois, diante de uma oposição fraca e manchada, todas as polêmicas que foram capazes de marcar o seu governo foram forjadas por ele mesmo. O maior exemplo é a mais atual. A saída de Moro, além de prejudicar sua popularidade, quebra com o seu compromisso anticorrupção. O agora ex-ministro deixou claro que o motivo de sua saída era por não concordar com uma tentativa do presidente de politizar a Polícia Federal através do compartilhamento de informações com o Executivo. Além disso, apontou uma fake news no Diário Oficial envolvendo seu nome. De acordo com Moro, ele não sabia da exoneração de Valeixo sendo que no comunicado constava sua assinatura. 

O atual momento parece ter ligado o modo desespero em Bolsonaro. Em uma busca de apoio, mudou a direção da articulação do governo e tem buscado se aproximar do Centrão para garantir o enfraquecimento de Maia. E aqui se vai mais uma de suas promessas: romper com a velha política. Em meio ao desespero, Bolsonaro se vê obrigado a apelar para aquilo que conhece bem: o velho jogo político que ainda resiste na Câmara. Guedes é o único pilar de credibilidade que o governo ainda mantém. No entanto, o jogo político que atrasa as reformas e a falta de sorte de ter uma pandemia que deixará sérias consequências econômicas para os próximos anos, mina o potencial do super ministro.  

Para Sergio Moro nada muda. Entrou grande e saiu gigante do governo. Para Bolsonaro, o trabalho duro nos últimos meses para cavar sua cova, encontra na saída de Moro sua primeira pá de terra.

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