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  • Vicente Alves

Brazil first!



“Eles dizem que é o Doald Trump da América do Sul, você acredita nisso?” Essas foram às palavras do Presidente americano ao falar do Brasil e da posse de Jair Bolsonaro. A frase é simples, mas termina com uma pergunta que sugere certa surpresa. Resta saber se Trump surpreende-se positivamente ao ver suas ideias sendo reconhecidas, ou se a questão exterioriza sua perplexidade ao ser comparado com Bolsonaro. Pelo tom do restante do discurso e pelo bem dos interesses comerciais, parece ser mais conveniente apostar na primeira alternativa. Entretanto, a segunda não é nenhum absurdo.


Comparar dois líderes políticos de países, culturas e perfis tão diferentes não é uma tarefa fácil. Mas basta olhar com atenção para os dois que veremos justificar-se, ao menos em alguns aspectos, a perplexidade da comparação.


Em menos de um mês de governo, Bolsonaro demonstrou-se muito inferior a Trump em um aspecto: a comunicação. O que é um paradoxo, tendo em vista o poder comunicacional que a chapa do atual presidente apresentou durante a campanha eleitoral. Com apenas 8 segundos diários de televisão, a chapa apostou na comunicação direta com o eleitor através das lives nas redes sociais. No entanto, parece que bastou a posse, ou mesmo a eleição, para aquilo que era uma virtude transformar-se no calcanhar de Aquiles. Depois de aprovada pelas urnas, a equipe presidencial mostrou-se assustada com o fato de tornar-se a única voz e ter para si todas as atenções.


Trump, assim como Bolsonaro, declarou guerra à imprensa tradicional e procurou meios alternativos para se posicionar diante dos eleitores na campanha. As lives e, principalmente, o Twitter transformaram-se nos principais meios de comunicação do jogo político americano. Este fato modificou a forma da própria imprensa tradicional de cobrir o dia a dia político. Trump e sua equipe perceberam que não sairiam impunes ao declarar abertamente guerra à mídia. A estratégia passou a ser pautar a imprensa todos os dias utilizando suas polêmicas mensagens do Twitter, assim o então candidato passou a decidir os temas abordados pelos jornais, ou ao menos parte deles. A prática estendeu-se para o seu governo e a estratégia fica clara ao percebermos a frequência dos posts do Presidente americano e o fato de haver ao menos uma postagem todas as manhãs.

O teórico da comunicação, Marshall McLuhan, ao analisar os efeitos causados em uma mensagem pelo meio em que é veiculada elaborou o seguinte conceito: “o meio é a mensagem”. Isto significa que o meio escolhido para a comunicação tem interferência direta no conteúdo da mensagem, sendo o primeiro até mais importante que o segundo. A escolha de Trump pelo Twitter não é em vão. A rede social, através de mensagens rápidas e curtas, torna o discurso do presidente americano concentrado e contundente, o que permite a reafirmação do seu perfil, a comunicação direta com a população e a dose de polêmica necessária para pautar a mídia.


A título de exemplo vale citar na integra o último post de Donald Trump quando este texto foi escrito (20/01):

”Não se esqueça, estamos construindo e renovando grandes seções do Wall agora. Movendo-se rapidamente e custará muito menos do que os políticos anteriores achavam possível. Construir, afinal, é o que eu faço melhor, mesmo quando o dinheiro não está prontamente disponível!”


Dentro do limite de 280 caracteres permitidos pela rede, Trump reforça suas propostas, critica os governantes anteriores e salienta suas qualidades como presidente/administrador.

Esta poderia ser uma estratégia interessante para Bolsonaro, visto sua dificuldade de oralidade e necessidade de afirmar suas propostas diante de uma parte relevante da população. No entanto, o que vemos é um presidente que trilhou o mesmo caminho de critica a imprensa tradicional durante toda sua campanha, eleição e primeiros dias de governo, mantendo até mesmo uma relação com muitas polêmicas envolvendo denuncias de censura e disponibilização de condições de trabalho indevidas para a imprensa na posse. No entanto, o governo não sustentou sua critica a imprensa com práticas que permitissem uma comunicação direta com a população.


Os primeiros dias do mandato têm sido marcados por um governo omisso em relação a casos polêmicos, como o do motorista Queiroz; com falhas na unidade do discurso, como nas falas impensadas de Mourão; por conflitos internos de opiniões expostos na mídia, como na discussão entre Flávio Bolsonaro e Joice Hasselmann; por Ministros com mais protagonismo que o Presidente, como nas polêmicas envolvendo Damares e Onyx; e o mais impressionante, o exagerado envolvimento dos filhos de Bolsonaro em seu governo.


Todas essas questões apontam um grave problema comunicacional na equipe de governo, mas também deixa claro a falta de domínio de Bolsonaro sobre sua equipe. A impressão passada é que o eleitorado votou no capitão, mas levou o soldado! Característica bem diferente de Trump que faz questão de ser o único protagonista de seu governo.


Uma semelhança entre o governante americano e o brasileiro é o lema que os levou ao poder e que sintetiza o suposto objetivo de ambos: a primazia de seus países em relação a todos. Trump vem cumprindo seu objetivo de forma a ser criticado por fomentar um nacionalismo cego que não enxerga a realidade mundial. Já Bolsonaro, apesar dos pouquíssimos dias de governo, dá sinais que não conseguiu colocar nem mesmo os “garotos” – como ele se referiu ao filho de 37 anos, Flavio Bolsonaro, ao tentar emendar uma de suas falas imprudentes – abaixo das prioridades do Brasil. Ainda são poucos dias de governo, mas o quanto antes o capitão tomar o controle da sua equipe melhor para o país. Para isso é preciso lembrar da promessa: Brazil First!


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