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  • Vicente Alves

Apenas ritmo e poesia

Por esses dias, em um daqueles momentos de carona que se busca um assunto para quebrar o silêncio, alguém me perguntou o que eu tinha achado da nova música do Emicida. A indagação partiu do conhecimento prévio do interlocutor do meu gosto pelo rapper. Após se deparar com uma resposta negativa, logo criou teorias que pudessem justificar: “Ah imaginei que você não tivesse gostado! Ele tem ficado muito politizado. As letras dele só falam de coisas que você não acredita”. No mesmo instante me retratei: “Não é isso. Só achei a música ruim mesmo”. Seguimos e logo o assunto mudou. Mas algo voltou dias depois a martelar na minha cabeça. Gosto de rap. Sempre gostei e sem dúvida é o ritmo que mais ouvi ao longo da minha vida. Sempre gostei da ideia expressa na definição: um ritmo envolvente ornado a palavra rimada. No entanto, em certo momento, numa daquelas tardes de adolescência em que se gasta horas ouvindo um álbum recém descoberto, questionei-me a respeito do que ouvia. “Por que escuto e gosto tanto de algo que, quase sempre, não diz sobre o que acredito?” Nascia em mim o mesmo tipo de lógica que levaria o rapaz da carona a deduzir o porquê eu não gostei do single do Emicida. Nos dias seguintes a dúvida, passei a ouvir com mais atenção às letras dos rappers que mais gostava. Cheguei a duas conclusões: 1- realmente isso fala muito pouco sobre mim; 2- interessei-me ainda mais. Segui ouvindo. O gatilho do diálogo que narrei no início trouxe a minha memória alguns vídeos desses de Youtube em que jovens, que acreditam-se cruzados do século XXI contra hegemonias ideológicas, achincalham Emicida e companhia utilizando pretextos para disfarçar sua jihad juvenil. Eu poderia ser um desses. Agora poderia estar escrevendo sobre o quão “sem talento e oportunista” são esses rappers para justificar minha discordância ideológica. Mas não posso...continuo gostando de rap. Depois da fase de meu questionamento adolescente sobre o que ouço e o que creio, passei a concordar - mesmo que ainda não conhecesse - com a ideia de Charles Baudelaire, “A Verdade não tem nada a ver com as canções”. Explico. Isto não liberta a poesia musical da verdade, mas retira da mesma o compromisso de representar a Verdade. A mudança é sutil, mas profunda. Uma obra de arte não é capaz de exprimir toda a Verdade absoluta. Exigir isso é atestar a impotência da mesma. Basta a ela exprimir uma verdade. Acredito que seja isso que aqueles jurados do The Voice querem dizer com “não senti verdade na sua voz!”, pois se o “v” for maiúsculo, creio que nunca uma cadeira deveria virar. No mesmo trecho de Filosofia da Imaginação Criadora citado acima, Baudelaire discorre sobre o objetivo da poesia. O trecho na íntegra deixará mais claro a ideia anterior.


“Uma enorme quantidade de gente considera que o objetivo da poesia  é um ensinamento qualquer, que deve ora aperfeiçoar aos costumes, ora demonstrar algo de útil. Edgard Poe pretende que os americanos patrocinaram especialmente essa ideia heterodoxa ; infelizmente não é necessário ir até Boston para encontrar a heresia em questão. Aqui mesmo [na França], ela nos cerca, e todos os dias bombardeia a verdadeira poesia. A poesia (…) não tem outro objetivo senão ela mesma ; ela não pode ter outro, e nenhum poema será tão grande, tão nobre, tão verdadeiramente digno do nome de poema do que aquele que terá sido escrito unicamente pelo prazer de escrever um poema. Não quero dizer que a poesia não enobreça os costumes, — que me entendam bem, — que seu resultado final não seja de elevar o homem acima do nível dos interesses vulgares ; isso será evidentemente um absurdo. Digo que, se o poeta perseguiu um objetivo moral, ele diminuiu sua força poética ; não é imprudente apostar que sua obra será má. A poesia não pode, sob pena de morte ou de desfalecimento, comparar-se com a ciência ou com a moral. A poesia não tem a Verdade como objeto, ela só tem a ela mesma. Os modos de demonstração da verdade são outros e estão alhures.” (BAUDELAIRE, 1993, p. 57).


Esta ideia talvez possa chocar alguns. E se não entender em sua inteireza é bom que choque. Com ela não nego o potencial da arte como instrumento para formação do imaginário coletivo ou para a criação de narrativas - o que alguns vão colocar a cargo de teorias como marxismo cultural -, mas a ideia aqui é outra. Não me posiciono no debate como quem faz arte, mas como quem consome.  

Emicida, e o  rap em geral, não exprimem a Verdade e nem mesmo a minha verdade. No entanto, ele fala sobre aquilo que é a sua verdade (não considere esse um discurso relativista que prega a inexistência de uma Verdade absoluta. Apenas leve em conta as diferentes formas de ver o mundo). Isto explica porque o rap se tornou mais interessante para mim na adolescência mesmo após uma análise mais minuciosa de seu conteúdo. Ver o mundo a partir de outra ótica pode ser uma aventura que, se bem aproveitada com os pés fixos na alicerce escolhido, auxilia na autodefinição.

Este aparente descompromisso com a Verdade não significará aleatoriedade, onde qualquer expressão é considerada artística. Para que o seja será necessário algum compromisso com a fundamentação estética.

Achar a nova música do Emicida ruim não pode ser justificado somente por discordâncias ideológicas ou algo do gênero. Afinal, não apertei o play para ter um intensivo de sociologia, filosofia ou teologia. Só queria ser envolvido pelo ritmo ornado com a palavra rimada, mas nessa ele (Emicida) falhou.

Em resumo, assim como não tem cabimento dizer que Weber não tem relevância científica pois não compunha sonetos, não é consistente acreditar na falta de  talento de Emicida - ou qualquer outro - devido às suas ideologias. Esse julgamento deve resumir-se a apenas ritmo e poesia.


"Não existe verdade universal na arte. Na arte, a verdade é aquilo cujo contrário é igualmente verdadeiro". Oscar Wilde

"Não existe verdade universal na arte. Na arte, a verdade é aquilo cujo contrário é igualmente verdadeiro."

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