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  • Gustavo Lima

A denúncia do Neocolonialismo no Sínodo

Um dos pontos mais repetidamente tocados ao longo de toda a preparação e execução do Sínodo da Amazônia é a questão do Neocolonialismo – o Documento Preparatório e a Instrumentum Laboris falam insistentemente do tema. Mas o que isso significa? O termo se refere a um processo, como o nome diz, de nova colonização, análogo à antiga, cujos fins são semelhantes – exploração econômica, dominação política – embora os meios tenham mudado, tornaram-se mais sutis que a bruta imposição institucional e bélica. No Neocolonialismo as maiores potências do mundo exploram as regiões mais frágeis com suas indústrias e empresas, além da forte influência política e cultural – em que exercem papel fundamental os meios de comunicação e a globalização estabelecida principalmente através deles. Simplificando: as nações fortes usam matéria-prima e mão de obra e vendem seus “produtos” – materiais ou culturais – às mais frágeis, aproveitando-se da sua desestrutura. É sabido que a Amazônia possui enorme riqueza natural. Para a cultura mercantilista predominante em nosso tempo, isso é sinônimo de potencial econômico, uma visão que contrasta diretamente com o modo de vida “naturalista” dos povos tradicionais da região – em especial, os indígenas, para quem a natureza tem aspecto inclusive transcendente.  Esse choque de culturas tem gerado conflitos há décadas na região, muito semelhantes em seu tipo com os conflitos entre colonizadores e povos nativos quando da descoberta das Américas. Como outrora, a vantagem está do lado do dinheiro: empresas e indústrias vão ocupando espaços e consumindo recursos, enquanto a população local vai tentando sobreviver às sequelas sociais e ambientais dessa exploração – um processo favorecido pela corrupção das instituições públicas que deveriam assegurar direitos e fazer cumprir leis. As consequências são muitas: migração forçada, fome, isolamento social, crescimento urbano desordenado, perda de identidade cultural, poluição e envenenamento dos rios, tráfico humano, tráfico de drogas. Você já viu notícias sobre isso no jornal? Já dissemos que o Neocolonialismo tem meios mais sutis – e fins semelhantes, até mais cruéis. A principal via é a cultura: incutir na população uma série de valores que sustentem a exploração econômica e social, em nome do “desenvolvimento” – tudo enfeitado e colorido, é claro, afinal “agro é tech, agro é pop, agro é tudo”. É que se chama de tecnocracia: o progresso tecnológico e científico acima de tudo. De forma simplória, é achar que tudo bem derrubar um floresta se for para produzir iphone. É lógico que o finalidade é mais econômica que científica. Não se pretende negar aqui os benefícios do desenvolvimento tecnológico e científico. Nem o que a cultura europeia trouxe de avanço para os povos americanos, especialmente em questões de moral objetiva e de civilidade – aspectos em que se pode, sim, hierarquizar culturas. Os pontos negativos são principalmente a forma impositiva e a depreciação daquilo que é próprio e positivo da cultura local (sobre isso, leia o nosso último texto). De alguma maneira, dá pra dizer que na verdade a colonização nunca deixou de existir, só mudou de forma. Os países que fizeram independência continuaram economicamente dependentes das nações colonizadoras, além de terem assimilado forçadamente sua cultura. O poder mudou de forma, mas nunca mudou de mãos. E o Papa com isso? A Doutrina Social da Igreja afirma que a promoção da dignidade humana é um aspecto intrínseco da sua atividade religiosa, ou seja, questões sociais, políticas, culturais, ecológicas são de interessa da Igreja como parte do seu programa de pregação do Evangelho. Fora isso, o Papa Francisco é um latino-americano, parece natural que ele tenha um olhar diferenciado para a região. Por último, está o fato de que a situação atingiu níveis críticos mais recentemente. A primeira razão porque o Neocolonialismo é relevante para a Igreja é porque esta sempre se posicionou a favor da vida e da sua dignidade. Todas as graves consequências sociais são um problema humanitário gigante. Os números de criminalidade e a natureza dos crimes frequentemente cometidos na Amazônia não podem passar despercebidos por quem quer que se interesse em defender a vida humana. Além disso, ao ler o que o Sínodo tem produzido, parece também um esforço da Igreja por redimir-se da colaboração que seus agentes deram, mais ou menos conscientemente, ao primeiro processo de colonização – os documentos chegam a dizê-lo expressamente algumas vezes. Todos nós já ouvimos as histórias sobre a catequização dos índios e a contribuição da Igreja para a imposição da cultura europeia aos povos nativos – o que ninguém vai dizer é que religiosos e padres católicos lutaram muitas vezes ao lado de indígenas contra europeus quando identificaram abusos da parte destes. O Papa Francisco já demonstrou em alguns discursos – e a Igreja, como um todo, em alguns documentos – a preocupação em que a atividade religiosa não favoreça novamente, mesmo que sem querer, essa exploração “colonizadora”, substituindo a cultura local por uma que venha de fora junto a seus missionários. Por isso, os materiais produzidos para e pelo Sínodo falam abundantemente em inculturação e interculturalidade: praticar a atividade religiosa (litúrgica e evangelizadora) sem entretanto ferir a cultura local, mas pelo contrário aprendendo com ela e assimilando-a no modo de ser Igreja na Amazônia – o que está sendo chamado de “Igreja com rosto amazônico”. Os escritos do Sínodo falam inclusive em aprender com a sabedoria ancestral indígena, o que pode soar estranho, uma espécie de sincretismo, mas refere-se principalmente a valores morais que se pode extrair da maneira como os indígenas se relacionam com a natureza. Mas o principal termo – e conceito – que está sendo utilizado é o de ecologia integral. Desde a Encíclica (um dos tipos de documento oficiais pelos quais o Papa se manifesta) Laudato Si’, tem sido feito forte apelo por respeito ao meio ambiente, já que a natureza entendida Criação tem lugar especial na teologia católica. O desenvolvimento econômico e a justa exploração da terra não são condenados, mas não podem se sobrepor à dignidade e à preservação de todas as formas de vida, em especial a humana, e esta depende das outras – o Papa tem insistido em dizer que “tudo está interligado”, e a ideia resume o conceito de ecologia integral – tema pede um texto só seu no futuro. Em resumo, quando o Papa e os documentos sinodais falam de Neocolonialismo é para condenar a cultura de consumo e descarte que fere as pessoas e o meio ambiente na Amazônia, a lógica mercantil e tecnocrata com que as grandes nações exploram as regiões vulneráveis ali e no mundo todo – vulnerabilidade essa que é, muitas vezes, sequela da colonização clássica, de séculos atrás.


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