Imagina só: “seu ônibus chega, você entra e se senta em uma janela qualquer. Logo depois, uma senhora, que subiu no ponto seguinte, ocupa o lugar ao lado. Você acha estranho, pois não havia muita concorrência nos outros bancos, tendo até mesmo janelas vazias. Dois ou três minutos depois uma voz sussurra por trás dos seus fones de ouvido. É ela, a senhora. Com um sorriso forçado que busca responder aos bons modos ensinados na infância, você retira os fones já pensando em como encerrar o assunto o mais rápido possível. Entre frases soltas intercaladas com pequenas pausas que te deixam na dúvida se a conversa já terminou, a senhora versa coisas do tipo:

 ‘com essa chuva o ônibus sempre atrasa!’.... ‘aposto que o Júlio esqueceu de levar a sombrinha’..... ‘o Júlio é o meu neto!’..... ‘ele até parece com você, deve ter a sua idade!’..... ‘agora ele tá namorando, mas a mãe dele não tá gostando muito disso!’..... ‘tá achando que ele vai engravidar a menina’.... ‘ela só fala isso porque tem medo de acontecer o que aconteceu com ela’..... ‘engravidou com 15 e o pai dele, do Júlio, abandonou!’..... ‘aí sobrou pra mim né!? Eu que tive que cuidar’.... ‘mas era melhor do que ficar com aquele traste, só sabe encher a cara’.... Quando você começa a se envolver com a história, ela se levanta em um repente, tão abrupto quanto a chegada, e saí. A sua vontade é de ir atrás e exigir mais detalhes da história que há poucos minutos você só queria que não começasse”.

 

É bem provável que tenha sido bem fácil imaginar esta história, pois, também é bem provável que ela já tenha acontecido algumas vezes com você. 

No dia 6 de outubro, o programa Fantástico da Rede Globo exibiu uma entrevista com a atriz Cléo Pires tratando dos comentários maldosos que ela tem recebido nas redes sociais. A repórter iniciou dizendo que “a Cléo tem sido vítima de body shaming”, que é um desses termos inventados para descrever algum tipo de ofensa, como se agressões devessem ser divididas por modalidades. Esta refere-se às injúrias acerca do corpo de outrem. 

Apesar de o caso de Cléo Pires não ser o centro deste texto, cabe ressaltar uma outra fala da repórter. Em certa altura, ela pergunta “por que você (Cléo) acha que a pessoa se sente a vontade de ir até a sua rede social e te agredir?”. A atriz global argumenta acreditar que a internet potencializa algo bem humano: a dificuldade de lidar com problemas e transferi-los para os outros. Concordo em partes com a resposta. Acredito que sim, a internet potencializa um traço comum no homem, mas esse não é a transferência de problemas.

 

O homem moderno é afeito a intimidades. Expor e entrar em intimidades, sejam físicas ou emocionais, tornou-se comum. No entanto, nas redes sociais essa característica se torna ainda mais perceptível. Voltemos ao caso inicial. Cléo Pires não parece ter grandes preocupações ao expor sua intimidade em suas redes sociais e argumenta - inclusive na reportagem - que tem todo o direito de fazê-lo. Realmente o tem. E antes que venham me acusar de estar colocando a culpa na vítima para “passar pano” para agressor, defendo-me afirmando que: sim, ela é a vítima! Porém, desejo ainda constatar que Cléo é vítima por dois motivos: (1) por sofrer agressões gratuitas; e (2) por não saber utilizar suas próprias redes sociais. Ressalto que o acréscimo de um segundo ponto não justifica ou alivia nenhuma agressão, apenas nos ajuda a entender um fenômeno maior.

Como disse, o caso citado acima não é o centro, mas apenas um exemplo de um problema mais amplo. Ambos os lados da história, agressores e vítima, são fruto de iliteracia midiática. Ou seja, são iletrados no que envolve o bom uso das novas mídias. A vítima por expor demasiadamente o melhor lado de sua intimidade - seu corpo, seus romances, sua família etc; os agressores por exporem demasiadamente o seu pior lado - sua raiva, sua inveja, suas piores palavras etc. 

Abrir demais a intimidade a desconhecidos é contrário a nossa própria natureza. Isso explica o estranhamento que sentimos quando vivenciamos situações como aquela que imaginamos no início do texto. Ouvir um desconhecido nos contar dos seus problemas familiares chega a ser constrangedor. Entretanto, a intimidade de um indivíduo é sempre fascinante e por isso faz crescer em nós a curiosidade mais torpe que o homem pode ter, aquela que se refere a vida do outro. Repare que não utilizei a palavra “interesse” e sim “curiosidade”, pois interessar-se prediz importar-se, trazer para dentro de si, e o curioso só quer bisbilhotar o que tem dentro do outro. Só se interessa / importa quem quer ser intimo. A curiosidade gerada pela história da senhora do ônibus não sinaliza nenhum desejo de aproximação, é apenas um ato similar a um cão que fareja até encontrar algo, analisa e parte para a próxima xeretada, quando não defeca no local encontrado. 

Talvez a falta de coragem de perguntar para a senhora ou de ir atrás dela para saber mais sobre o Júlio ou sobre seu genro alcoólatra pudesse ser vencida por alguns quilômetros de distância e por um esconderijo atrás de uma tela. Ali, diante do teclado, nem mesmo o sorriso educado seria necessário, apenas a sede por se meter na intimidade alheia. Sorte da senhora do ônibus que não deve ter Facebook ou Instagram! 

Cléo foi vítima da mesma ingenuidade da nossa senhora imaginária: expôs demais para quem não merece. No caso dela, esse alguém que ficou sabendo demais são 11 milhões de seguidores por trás de máscaras virtuais. Aí está a potência da internet! Ela contribui para varrer de vez os últimos resquícios de pudor da sociedade moderna.  

Termino com um aviso. Podemos comparar o iliteracia midiática atual com o caso da hoje chamada educação financeira. Depois de muitas crises econômicas que fizeram milhares de pessoas perderem tudo, vemos crescer progressivamente  as manifestações por mais educação financeira para a população. Diversas iniciativas vêm sendo tomadas por todos os lados, público e privado, a ponto de muitos defenderem a inserção de uma disciplina na grade curricular das escolas que ensinem a lidar com o dinheiro. Pois bem, façam o mesmo com a mídia ou então os “batizadores” de modalidades de agressão terão que ser ainda mais criativos! 

14 de Outubro de 2019

Por Vicente Alves