Eu não precisaria muito para responder ao título: basta um “sim”. Um “sim” sonoro: não apenas para pessoas de fé católica, mas para toda sociedade – uma vez que a Igreja é uma instituição de relevância em muitas matérias que não só a religião.

Mas a experiência atesta que só damos importância às coisas importantes quando sabemos porquê. É com isso que eu vou gastar algumas linhas, e você, um par de minutos: procurando esclarecer como, por que e pra quem o Sínodo da Amazônia é importante.

O que é um Sínodo?

Um Sínodo dos Bispos é um reunião, ou assembleia, dos bispos de todo mundo “com e sob Pedro” – o Papa – para discussão de temas de interesse de toda a Igreja, inclusive em sua relação constante com a sociedade. Simples assim. A coisa foi instituída pelo Papa Paulo VI em 1965, dentro da lógica das reformas do Concílio Vaticano II.

O objetivo é claro: reunir o Papa e os bispos para que discutam e proponham respostas a questões atuais e tocantes à fé da Igreja e ao bem das pessoas. É apenas uma forma relativamente nova (considerados os quase dois mil anos da instituição) de manter a Tradição Apostólica da Igreja, ou seja, que suas decisões sejam tomadas pelos apóstolos (no caso, seus sucessores), sob a liderança daquele que tem o primado entre eles, o Bispo de Roma.

Em geral, um sínodo tem três fases: a fase preparatória, na qual se realiza uma consulta popular sobre os temas indicados pelo Papa; a fase celebrativa, caracterizada pela reunião de assembleia dos bispos; a fase de implementação, na qual as conclusões do sínodo aprovadas pelo Romano Pontífice devem ser aceitas e aplicadas pela Igreja.[1] No caso do Sínodo da Amazônia, a segunda fase, central, começou no último dia 6.

Por que um Sínodo da Amazônia?

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, ou simplesmente Sínodo da Amazônia, tem caráter especial – um de três tipos possíveis, além de Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária –, conforme diz o nome extenso. Isso significa que foi convocada para tratar de um tema específico de uma região, embora tenha relevância para todo o mundo.

O Sínodo tem um muito explicativo subtítulo: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Ele expressa que a Igreja tem duas preocupações principais: sua atuação diretamente religiosa na região; e o bem-estar dos povos ali residentes frente às questões ambientais e econômicas atuais. Tudo isso leva em consideração não apenas os católicos, mas também as pessoas de outros credos.

O que será discutido?

A questão religiosa é, em termos simples: a Amazônia é um território vasto, de difícil acesso e locomoção e de populações muito dispersas (comunidades muito distantes entre si). Além disso, com uma cultura local muito própria e forte. A Igreja dispõe de pouquíssimos padres lá (não só padres, mas digo que principalmente, por seu papel único dentro da atividade católica) para atender os católicos da região. Há comunidades onde a Missa só é celebrada uma vez por ano, por exemplo, quando a doutrina pede dos fiéis a frequência semanal (dominical).

Uma das principais discussões do sínodo é a possibilidade de ordenar homens casados na Amazônia, por uma questão de necessidade – vale lembrar que, segundo o ensinamento católico, o celibato sacerdotal não é um mandamento divino, mas uma regra disciplinar da Igreja que, embora muito sólida há mais de milênio, pode ser alterada circunstancialmente.

A questão social do Sínodo – a ecológica – “foge” a alçada da Igreja no sentido de que ela não é uma instituição científica/acadêmica que pretenda solucionar as questões ambientais e econômicas da região.

O que a Igreja faz nessa matéria é o seguinte: se manifesta do sentido de apelar às pessoas, órgãos e instituições competentes que respeitem os princípios morais, humanitários e legais para promover o bem-estar das pessoas. Ela o faz munida também dos diversos dados e pareceres científicos – uma vez que a Igreja reconhece a grande importância da Ciência, sendo uma grande entusiasta e financiadora sua – indicando caminhos que julgue serem possíveis e corretos seguir, ao mesmo tempo denunciando medidas e soluções que julgue serem más.

Por que o Sínodo tem gerado polêmica?

Antes de responder, faço outra pergunta: o que não gera polêmica neste mundo globalizado do século XXI? Se alguém me flagra descendo da cama com o pé esquerdo, logo vão me acusar de ferir a crença dos supersticiosos (“uma afronta!”) ou de preconceito contra os destros (“por que não descer com os dois?”) – aliás, um flagra que só poderia ser feito por alguém da família, mas nem os laços sanguíneos tem resistido a esse hábito moderno de problematizar tudo.

Na matéria religiosa, a polêmica é a ordenação de homens casados. Os católicos, preocupados com a conservação da sua fé, temem que, caso isso seja aprovado, abra precedente para que mais e mais exceções sejam feitas até que, num efeito “bola de neve”, o celibato sacerdotal tenha importância diluída e seja talvez abolido. Temem que isso seja uma semente de progressismo crescendo dentro da Igreja, com a benção (literalmente) do Papa e dos Bispos. Alguns vão teorizar inclusive sobre conspirações de sacerdotes “comunistas” tentando matar a Igreja por dentro.

O aspecto social é mais complexo. Mas em linhas gerais, podemos dizer que a polêmica nasce do fato de que as questões ambientais não são, mas ganharam viés ideológico – sobre isso, leia esse nosso outro texto. Apesar de ser uma questão pertinente a todos – é nossa saúde, nossa sobrevivência e a de nossos descentes que está em jogo – foram abraçadas pelos movimentos de pensamento progressista, em geral, contrários à religião e aos valores religiosos, gerando um certo desconforto nos conservadores quanto ao tema. Fora o tom às vezes panteísta e "esotérico" do discurso "ambientalista".

O que esperar do Sínodo?

A Igreja Católica é uma instituição de peso histórico, cultural e social. Embora o Sínodo seja uma reunião interna sua, da qual não participam autoridades seculares, as resoluções nele formuladas certamente terão relevância para a atuação de outras instituições competentes. A própria convocação do Sínodo tem parte da sua motivação nos acontecimentos e debates recentes que correram o mundo – vale lembra que a briga meio “quinta série” entre Bolsonaro e o presidente da França Emmanuel Macron, que incluiu ofensas à esposa do francês, começou com declarações sobre o tema.

Dado o histórico do Papa Francisco, é provável que extremistas de ambos os lados se decepcionem. Para a direita, a própria realização do Sínodo já não muito bem vista, soa meio “intervencionista”, e o Pontífice costuma ser crítico quanto à exploração econômica do meio ambiente e dos povos, tão cara aos liberais. Já a esquerda cria, desde as primeiras declarações de Francisco, uma expectativa de que o Papa atual seja um grande reformador, que vai acabar com o pensamento e a cultura retrógradas da Igreja Católica. Mas os atos e as palavras do Pontífice costumam ser bastante diferentes do perfil progressista pintado pela mídia. O próprio já afirmou mais de uma vez, quando perguntando sobre questões caras aos progressistas (uniões homossexuais, ordenação de mulheres) que é “um filho da Igreja”.

É bem provável que as decisões importem majoritariamente aos católicos – que parecem, incrivelmente, os mais alheios ao Sínodo – versando mais sobre a atuação religiosa da Igreja na região amazônica. No tocante à questão ecológica, o Sínodo não deve mais que reafirmar os princípios já bem estabelecidos da Doutrina Social da Igreja; não deve haver muita novidade. Não quero com esta “previsão” diminuir o peso dessa reafirmação: é uma voz que deveria ser mesmo mais ouvida.

08 de Outubro de 2019

Por Gustavo Lima

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Durante todo o mês, vamos ver e ouvir muita coisa sobre o Sínodo da Amazônia nas redes sociais, no rádio, na televisão. Aqui mesmo no Um Ponto, teremos vários textos. Mas a melhor fonte de informação sobre as atividades da Igreja Católica continua sendo ela mesma. Se você quer saber mais e acompanhar o Sínodo até o dia 27 (dia do encerramento), o Vaticano disponibilizou um site e criou páginas e perfis próprios do Sínodo nas redes sociais (links abaixo) com muito material, além da cobertura dos acontecimentos todos.

www.sinodoamazonico.va/content/sinodoamazonico/pt

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www.facebook.com/synod.va

twitter.com/Synod_va

 

 

[1] Fonte: <<http://www.sinodoamazonico.va/content/sinodoamazonico/pt/noticias/perguntas-frequentes-sobre-o-sinodo-dos-bispos--sinodoamazonico.html>>