O mundo cinematográfico tem visto nos últimos anos as franquias que tratam dos super-heróis e supervilões tomarem conta dos cinemas. Vide os mais de 5 bilhões de faturamento do universo Marvel em 2019 e o sucesso de filmes como Coringa e Aranhaverso. Confesso que não sou grande entendedor desse gênero, mas por fins ilustrativos  me atreverei a destrinchar um ou outro ponto. 

 

Sempre que assisto um lançamento, deparo-me com a tentativa dos roteiristas de humanizar ao máximo os heróis. Obviamente, esse movimento sempre existiu. Heróis sempre passaram por perdas, viveram romances e contaram piadas. Nós sempre nos identificamos com vilões por reconhecer um pouco de nós neles. No entanto, cada vez mais essa realidade tem sido vista como um nicho importante de mercado. 

 

O já citado Coringa demonstra essa tendência ao atribuir a gargalhada a uma doença mental e não mais a um acidente ou excentricidade. Outro exemplo, são os heróis atrapalhados ou politicamente incorretos que ganham o público, como Shazam e Deadpool, respectivamente. Algum leitor mais fanático por esse universo, pode argumentar com as origens nos quadrinhos ou para qualquer outro produto similar - que provavelmente não vou conhecer - para justificar que tais traços já existiam. Não duvido. O desejo aqui é constatar a aprovação do público quando os homens e mulheres de roupa de elastano demonstram humanidade enquanto lançam carros e salvam crianças no ônibus da escola amarelo. 

 

Se ver um sujeito com super poderes em um arranjo mais humanizado nos é agradável aos olhos, o oposto também é verdadeiro e precisamos  valorizá-lo. Na última semana, vimos morrer Kobe Bryant em uma tragédia horrível junto a sua filha e mais 7 vítimas. Tragédias sempre nos fazem refletir com mais intensidade sobre o valor da vida. Em casos em que uma figura pública morre a comoção é ainda  maior. É fácil vermos nascer o seguinte pensamento: por que a morte da celebridade é mais chocante que a das outras vítimas? Obviamente não podemos responder em linhas gerais, mas podemos falar no caso de Kobe. A vida de todos naquele helicóptero tinham o mesmo valor e essa noção é bem clara no coração de todos, como ficou exemplificado no discurso de Lebron James antes do jogo contra o Portland Trail Blazers. Mas Kobe, assim como os heróis, carregava consigo o poder de ser um símbolo. 

 

Em certo momento da sua carreira, o ídolo dos Lakers criou uma espécie de alter ego que iria acompanhá-lo até o fim da vida. A Black Mamba é uma das cobras mais venenosas do mundo e é conhecida por ter um ataque rápido e letal. A alcunha veio primeiro como apelido pelas habilidades dentro de quadra, mas depois tornou-se uma espécie de filosofia de vida. 

 

Hoje, quando olhamos para a biografia de Kobe, vemos que a serpente de fato era o animal que mais o representava. O réptil em questão é conhecido por se locomover rastejando, ou seja, estando agarrado ao solo. No caso da mamba negra, ela até possui a habilidade de subir em árvores, mas raramente o faz pois presa à terra consegue mais velocidade. Kobe foi como uma mamba. Com o objetivo claro de ser o melhor de todos os tempos, se agarrou nas suas possibilidades e tornou-se um obcecado por treinos. Sabia que ali poderia se tornar mais rápido e só assim seu ataque seria letal. 

 

Kobe justificava a origem do alter ego na necessidade de separar seus objetivos em quadra das questões pessoais. Apenas uma forma caricata - alguns podem até dizer marqueteira - de fazer aquilo que devia ser feito. O Black Mamba era apenas um auxílio para Kobe vencer a sua mediocridade que insistia em pensar no agora e minava seu objetivo. 

 

Black Mamba era a personificação da vontade de um  homem de ser íntegro. Kobe sentia no fundo de sua alma a necessidade de ser um só, mesmo que para isso fosse necessário criar um outro eu. Por mais paradoxal que pareça, tal raciocínio fica claro ao ver os relatos de seus companheiros e de seus familiares. Ambas as partes destacam como Kobe era inteiro naquilo que se dedicava. 

Podemos correr o risco de olhar para  Kobe Bryant como uma exceção. Em certo sentido, ele o é. Afinal, nem todos serão um astro da NBA ou ganharão um Oscar. Ninguém será Kobe Bryant, pois ele já o foi. No entanto, é possível ser uma exceção como ele. Fazer o caminho contrário dos heróis do cinema: usar da sua humanidade para conquistar super-poderes. O Black Mamba não foi o melhor jogador de basquete de todos os tempos, mas ele conseguiu seu objetivo: foi o melhor Kobe Bryant!

 

É sempre complicado, e arriscado, fazermos análises psicológicas daqueles que não conhecemos. Talvez, na intimidade, Kobe não fosse bem assim. Mas essa é a vantagem de admirarmos heróis de carne e osso: sabemos que seus maiores poderes e seus piores defeitos partem das mesmas condições humanas que também somos feitos.

08 de fevereiro de 2020

Por Vicente Alves