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O fato é: o motorista apareceu cedo demais! Ingênuo foi quem acreditou na promessa de uma família imaculada regendo o país. Esta não é uma condenação ao Presidente Jair Bolsonaro, afinal, o envolvido direto até aqui é o filho, Flávio. Mas o caso Queiroz é mais uma prova que fazer da política um negócio familiar não é bom negócio. Uma saída possível para o Presidente é seguir a sabedoria popular: filhos, filhos, política à parte.

Mesmo sem sabermos quais os desdobramentos do caso e o que será de Flávio e, principalmente, se sobrará algo para o patriarca dos Bolsonaro é certo que esse é o primeiro de muitos casos. Não é questão de rotular a família como corrupta, mas de reconhecer que ele é o alvo e tudo será usado contra seu governo. O caso Queiroz não pode ser banalizado e deve ser levado até ao fim, mas este não é o foco aqui.

Dito isto: vamos à proposta do texto. O motorista apareceu para Bolsonaro para lembrá-lo que ocupar o cargo da Presidência da República vem com alguns ônus. O engraçado é perceber que os motoristas costumam estar envolvidos nesse processo. Michel Temer viu sua popularidade despencar – talvez esta não seja a melhor palavra, visto que a altura nunca foi muito grande – após uma greve dos caminhoneiros. Fernando Collor, o exemplo mais emblemático, passou de “caçador de marajás” para inimigo nacional após os depoimentos do motorista da Presidência, Eriberto França, denunciando o esquema de propinas e tráfico de influência regido pelo ex-caixa de campanha, Paulo César Farias, do então Presidente. Collor sofreu o impeachment, mesmo com o motorista só aparecendo com dois anos de mandato. E Bolsonaro, com Queiroz em cena já antes da posse?

Confabulemos um cenário “apocalíptico” para uns e “dos sonhos” para outros. Queiroz depõe. É comprovado qualquer um desses crimes com nomes difíceis que advogados de oposição se orgulharão em falar. Posteriormente, chegam a Primeira-Dama, que já tem o nome em um dos cheques. Por fim, encontram o batom na cueca do Bolsonaro pai. Impeachment. Mais um! Eis a questão: quem entra?

A resposta, a princípio, pode ser lógica. Afinal, a Constituição prevê uma linha sucessiva. Vide Temer. Mas, também é razoável prever que a eleição seguinte presenciaria o surgimento de novas possibilidades. Vide 2018. Após o mínimo de reflexão parece que encontrar um nome, além de Bolsonaro, que seja uma liderança política no Brasil atual é uma missão quase impossível.

A chamada “nova direita” brasileira se espremeu para conseguir um líder, não tão novo quanto ela se diz, mas foi bem-sucedida. João Amoêdo do Novo apareceu como possibilidade e até foi bem para as suas condições, mas, por hora, não tem expressão para a Presidência da República. Rostos já conhecidos, como Marina Silva e Geraldo Alckmin, passaram longe das expectativas. No caso do tucano, a situação é ainda mais grave, já que o seu fracasso no pleito simboliza o atual estado do PSDB. A Rede de Marina ao menos emplacou 4 senadores, o que para o tamanho do partido não é nada mal.

Após as eleições, Fernando Haddad assumiu um tom mais irônico em suas redes sociais em uma tentativa de afirmar que tem alguma personalidade. Até mesmo os petistas mais fiéis precisam assumir que o papel de poste do Lula não deu certo. A sobrevivência do PT depende de um novo nome. Os escândalos de corrupção e a postura nas últimas eleições abriram uma ferida difícil de cicatrizar.

Outro nome de destaque do partido é o de sua presidente Gleisi Lula Hoffmann, como ela mesma se intitulou no período eleitoral. Apesar de estar sempre na mídia, esta parece uma possibilidade improvável, pois Gleisi parece ainda aguardar a volta triunfante de Dom Sebastião, preso em Curitiba, enquanto revolta até psolistas, como Luciana Genro, ao apoiar Nicolas Maduro incondicionalmente.

As palavras do Mano Brown de cima do palanque petista parecem ter sido proféticas: “Se errou vai ter que pagar mermo!”. E o preço está sendo caro! Mas, talvez, o maior erro do PT tenha sido ignorar Ciro Gomes. A insistência em acreditar no discurso de Lula, feito antes de ser preso, que dizia ser uma ideia cegou-os para uma ideia possível, e livre, para reestruturar a esquerda.

Obviamente que todas essas especulações não dizem nada sobre a próxima eleição presidencial, afinal são quatro anos para novas lideranças surgirem. No entanto, o que vale pensar é que lideranças políticas não são importantes somente em períodos eleitorais. O governo e, principalmente, a oposição precisam delas para o jogo político. Fora o cenário hipotético desenhado acima, o governo conta com o Presidente Jair Bolsonaro que, por mais arranhado que seja pelos escândalos do filho, goza da legitimidade alcançada pelo pleito de 2018. Já no caso da oposição, vale citar outra frase de palanque, dessa vez proferida por Cid Gomes, que parece ganhar um sentido duplo. Para Ciro Gomes, traz esperança; para o PT, um chamado a realidade. “O Lula tá preso, babaca!”

24 de Janeiro de 2019

Por Vicente Alves