Vou falar de Big Brother aqui. O reality show, BBB, esse mesmo. Mas preciso dar uma volta,
pequena, antes.


O longínquo ano de 1984 parece um passado distante: o Muro de Berlim ainda estava de pé, a
ditadura ainda dava os últimos suspiros, ainda não víramos o tetra e o penta, o Flamengo tinha
apenas uma Libertadores. Para nós, uma era “atrasada”, anterior ao uso popular da internet e
do celular, só para citar o topo da lista. Mas 1984 já foi “o futuro” um dia, e uma obra de ficção
que tem a data por título foi publicada pouco mais de 40 anos antes – 70 anos de hoje –,
imaginando como seria esse futuro.


O livro escrito por George Orwell descreve um país fictício governado com mão de ferro por
uma grande figura, o Grande Irmão. Sua administração é dividida em apenas quatro
ministérios: Amor, Paz, Riqueza e Verdade, que atuam nos setores de justiça e segurança
pública, diplomacia, economia e informação e cultura de maneira exatamente oposta ao que
seus nomes indicam. A população vive sob uma disciplina ferrenha, e nesse país muito louco,
“o Grande Irmão está observando você”, literalmente, o tempo todo.


Alguns leitores já devem conhecer a referência. Dos que não conhecem, os mais atentos já
perceberam o que 1984 tem a ver com Big Brother – o inglês para “Grande Irmão”. Para os que
restam, esclareço: o nome do programa, sucesso mundial, que põe grupos de pessoas sob a
audiência de outras milhões, foi inspirado num ditador fictício de uma distopia escrita para
denunciar o totalitarismo pouco depois do fim de Segunda Guerra. E você achando que o BBB
não é cultura...


Adianto que não gosto do programa. Mas vim defendê-lo das críticas clichês – para tentar
criticá-lo de forma mais original em seguida, confesso. Sem julgamentos sobre o gosto de
quem gosta. A ideia não é emitir um parecer sobre a qualidade cultural do reality, mas usá-lo
para reflexão.


Os críticos habituais acusam o BBB de basicamente três “problemas”: ser pobre de conteúdo,
ter muita baixaria, premiar gente que não merece. O primeiro argumento é facilmente
superável, pois parte do princípio de que entretenimento “vazio” é mau, o que não é verdade.
Nós precisamos, com alguma frequência, de distração, de coisas que não exijam muito do
intelecto ou da atenção, que sejam descanso para a mente. É o que até pouco tempo se
chamava de “higiene mental”. O BBB pode não ser o seu tipo de distração, mas você
certamente gosta de alguma coisa – filme, série, livro, jogo – com tanto quanto ou menos
conteúdo. Isso não é uma crítica ou acusação de hipocrisia: você precisa disso, todo ser
humano precisa. A nossa época acelerada e ativista condena o ócio, físico e mental, e nos
convence de que, até no descanso, nós precisamos estar sempre produzindo, aprendendo,
trabalhando. “Fazer nada” é obsoleto: é de uma época em que nós não tínhamos a
possibilidade de estar multiconectados e ativos o tempo todo. Faço uma profecia: não demora
muito vão inventar – se já existe, popularizar – um aparelho que projete videoaulas e TED talks em nossos sonhos, para tornar o sono mais produtivo. Moderno – que, consultando o
dicionário, ainda não é sinônimo de “bom” – é tratar gente como máquina. Contra-ataco: é
muito humano distrair-se. E é muito bom, embora não muito moderno, ser humano.


A segunda acusação é a outra listra da zebra – inversa e complementar: além de não ter “bom
conteúdo", tem conteúdo ruim. “Baixaria” é a palavra mais usada, referindo às fofocas, brigas, promiscuidade. Essa faz um pouco mais de sentido, afinal, é inegável que o programa tem 
mesmo dessas coisas e mais. O erro aqui é ingenuidade: esquece-se que uma parte
considerável da audiência nacional gosta é disso mesmo. Com esse argumento, corre-se o risco de passar a, ligeiramente constrangedora, experiência de dizer “esse negócio tem muita
baixaria” e receber por resposta, de um interlocutor com brilho nos olhos, “exatamente!”. O
conteúdo do programa é mera expressão da nossa cultura. Se ela é uma cultura pervertida ou
não, isso é uma questão anterior e infinitamente mais ampla que o BBB. O programa não
condenou o país à promiscuidade, a promiscuidade é que produziu o programa – e o sustenta,
com audiência. Recriminar o programa é como condenar a pedra por se atirar da mão do
menino travesso à minha janela. Não é acabando com o Big Brother que se acaba com a
promiscuidade, mas o contrário. E se fosse preciso optar, arrisco dizer que o reality é um
problema menor. Por fim, uma constatação triste, mas objetiva: o BBB pode ser uma das mais
famosas, mas existe muita baixaria sendo produzida, até muito pior. Muitas que consumimos
sem a mesma “consciência crítica”, porque não são tão tachadas como o Big Brother.


Quanto a premiar imerecidamente, essa é uma crítica tola. Se ela parte do princípio de que
“mérito” é conquistado por “ações nobres” – categoria em que não se enquadra ficar trancado
numa mansão por três meses – a “nobreza” por trás do argumento, se autêntica, vai
reconhecer que dinheiro não está na lista de prêmios nobres; que boas ações são “pagas” com
coisas de muito mais valor – e nenhum preço – como gratidão, amizade, felicidade alheia, etc.
O crítico do prêmio de 1 milhão e meio para “alguém que não fez nada” é no fundo um
invejoso: queria ser ele a receber uma bolada dessas por nada. E vale lembrar que há muitos
meios que pagam valores desproporcionais, diante de um cenário de desigualdade social
crônica, e de forma muito mais grave, porque estrutural e constante; por exemplo o futebol
masculino de primeiro escalão. E nós – eu, muito incluído – damos nossa audiência de bom
grado.


O “prêmio” incômodo pode ser ainda idolatria, e a preocupação pode ser que se dedique
admiração a pessoas que dão “mau exemplo” ou exemplo nenhum. Se é disso que falamos,
podemos ficar tranquilos: a fama a curto prazo é paga com a condenação de uma vida longa de
subcelebridade em seguida. “Ex-bbb” é um dos termos pejorativos mais famosos da cultura
pop nacional.


É isso. Um pouco a contragosto, eu acabo de ajudar você, que se sente julgado por gostar de
Big Brother, a rebater as críticas. Mas se o programa tem audiência tão grande, se os fãs são
em maior número que os críticos, por que tanta necessidade de se justificar? Em outras
palavras: por que quem assiste BBB fica tão “na defensiva”? Eu tendo a acreditar que a defesa,
quando feita antes mesmo da acusação, é sinal de culpa. Sim: acredito que tanta justificativa é
mais para si que para os outros. Isso porque acho que, mesmo que se goste do programa, a
consciência acusa que alguma coisa não está bem ali – mesmo que não sejam os problemas já
levantados – e aqui refutados.


É agora que vou tentar ir à profundidade quanto aos “efeitos nocivos” do Big Brother. Eu
acredito que o programa seja, como dizem, “um grande experimento social”. Mas ao contrário
do que se supõe, nós não somos os observadores, somos os observados. O programa, em tese,
nos coloca no papel de “Grande Irmão”, mas isso não é verdade. No grande experimento, nós
não somos os cientistas, somos os ratinhos de laboratório. Nessa “distopia da vida real”, nós
não somos o ditador todo-poderoso, somos o povo engenhosamente condicionado.


A descoberta a ser feita, com o reality, não é o que um grupo de jovens fará numa festa com
música e álcool, o que um homem e uma mulher farão a sós num quarto ou de que maneira

uma disputa transforma o comportamento das pessoas. Faz milênios, literalmente, que nós
sabemos o que acontece nestas circunstâncias. A novidade aqui é saber como as pessoas
reagem ao observar de um ângulo inédito (literalmente de fora, o que é impossível no
cotidiano, mesmo quando se trata da vida dos vizinhos) esses comportamentos humanos tão
comuns – e, no BBB, certamente manipulados, quando não determinados pela produção do
programa. O objetivo do experimento é compreender como o comportamento do observador
– você, irmãozinho – é influenciado pelo comportamento alheio.


Amigo, isso não é teoria da conspiração. As “pesquisas de comportamento do consumidor” são
a ponta da lança do capitalismo moderno – e no dicionário do capitalismo, “humano” e
“consumidor” são sinônimos. As marcas querem vender, e para isso querem entender o que te
faz comprar. Observe o “show de marcas e patrocinadores” que é o programa. Então o BBB é a
grande ferramenta de venda, como se os multibilionários do mundo todo tivessem sentado à
mesa e feito um brainstorm para conceber o reality? Não. A realidade é sempre mais complexa
que a ficção. O programa é uma de infinitas formas de que o mercado dispõe. Mas é uma das
mais eficientes e baratas – porque gente ainda é a melhor forma de cativar e influenciar gente.


O Big Brother vende comportamento. Não o comportamento dos participantes, o seu. É quase
um processo industrial: o mapeamento e extração de comportamento humano em “estado
bruto”, seguido da fabricação e venda de comportamento “industrializado”. “Gente” é o
grande produto do século XXI. Por isso, o Grande Irmão está observando você.

17 de janeiro de 2020

Por Gustavo Lima