Seguindo as diretrizes da moral moderna vejo-me na obrigação de avisar de possíveis spoilers. Mas faço questão de ressaltar que a experiência do filme em questão não pode ser estragada por conhecer um detalhe ou outro. Logo, vale a leitura mesmo antes de assistir!

 

A experiência de assistir o Coringa é melhor definida por uma palavra: "atordoante". Ao sair do cinema, pude presenciar a reunião em roda de alguns amigos que ali estavam comigo e, além do silêncio, ouvir apenas comentários superficiais sobre uma cena, uma frase, um trejeito etc. Apesar de todos terem gostado bastante do filme, ainda era preciso digerir o que se tinha visto para que se pudesse ir além do: “aquilo foi muito bom!”. Algo parecido com a sensação de quando alguém aponta um de seus problemas de uma forma tão descritiva que não resta outra alternativa a não ser acusar o golpe.

 

Alguns, mais fanatizados, diferentemente daqueles que estavam comigo, quase não esperaram o fim dos créditos para levantar argumentos de possíveis narrativas ideológicas presentes no filme. Ou seja, para esses que se dizem inspirados pelos deuses (significado de fanático), o Coringa precisava estar na esquerda ou na direita. Porém, o diretor fez jus ao nome do vilão e teceu um verdadeiro Joker. No baralho, o Joker é aquele que se encaixa em qualquer lugar, podendo tomar o lugar do Rei ou do 2. O filme de Todd Phillips fala a burgueses e proletários.

 

Toda vez que algum lançamento promete contar a origem de um personagem famoso, a curiosidade que nos leva ao cinema é a de descobrir o que construiu cada traço que o consagrou. No caso do Coringa, precisávamos saber como alguém podia ser tão frio e sentir tanto prazer com a morte ao ponto de gargalhar como quem ouve a melhor piada. Mas a nossa motivação é correspondida de uma forma que surpreende quem esperava apenas um filme sobre um universo de heróis. Ao falar sobre a origem do Coringa, o enredo expõe doenças modernas. Cenas como as surras, a indiferença, os olhares de desprezo e os deboches podem ser elencadas por alguns como sintomas. Não concordo, por acreditar que tais fatos não se configuram nem como doenças e nem como modernos. São apenas  exemplos, e dos mais velhos, da falta de empatia e desvios morais próprios do ser humano.

           

Desde o início, Todd Phillips deixa claro que a patologia de Coringa é mais determinante sobre as suas ações do que qualquer rancor social que poderia funcionar como possível estimulante. Em uma das falas do personagens é dito que “o que não nos mata nos torna estranhos”, entretanto, sentir-se ou ser estranho é diferente de ser louco. Por isso, é tolice tentar enquadrá-lo em algum espectro político ou nas linhas exatas de um dogma. O Coringa vive o anarquismo da loucura. E uma sociedade que aplaude e se inspira em suas ações, como é narrado no filme, é ainda mais louca. A loucura é o grande ponto levantado. Tanto a de Coringa, já diagnosticada mas que precisa ser contida; quanto a da coletividade que ainda precisa ser descoberta por muitos, principalmente pelos loucos.

 

O filme relata como pano de fundo uma crise social protagonizada por um grupo que escolhe um assassino doente como símbolo da luta. Mesmo sem saberem a identidade do indivíduo, ele é eleito o líder do movimento com que não tinha nada a ver. No entanto, é exatamente este ponto que faz de Coringa um “bom” líder para aquele grupo. Não mostrar sua identidade e colocar para fora os instintos mais sombrios escondido atrás de um personagem, esse é o maior desejo de quem não quer ser identificado como louco. O enredo deixa clara a despreocupação do personagem principal com o grupo, sendo o contrário também verdade. O único desejo dos manifestantes era o símbolo, a máscara que dava coragem para ser quem não é e apagava as suas singularidades fazendo de todos, loucos e sãos, um só — como na cena da perseguição do metrô.

 

A questão da identidade também é apontada em outra fala: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse”. Sem desmerecer tudo aquilo que esta frase diz para aqueles que sofrem algum tipo de patologia, sugiro lermos de outra forma. Se substituirmos “doença mental” por “problemas” ou “defeitos”, temos a descrição da sociedade moderna. Para atestar esta tese, abra o seu Instagram ou pergunte a cinco ou seis pessoas se está tudo bem e aguarde a mesma resposta de todas. Todos irão sorrir e tentar esconder ao máximo as suas mazelas para que só percebam o seu lado bom. Com isso, não pretendo defender a exposição de intimidades sem critérios (sobre este tema foi falado em outro texto, clique aqui), apenas atento para a incapacidade moderna de lidar com aquilo que não é agradável. Alguns traços na figura do Coringa deixam esse aspecto evidente. Já em sua infância, sua mãe solicitava a sua constante felicidade mesmo em meio à violência sofrida. Os anos se passam, e a alegria se torna uma obsessão.

 

O diretor demonstra isso de forma bem interessante ao rememorar o filme “O homem que ri”, de Paul Leni, com a cena em que Coringa força o sorriso com os dedos em frente ao espelho. A música de Chaplin tocada em alguns momentos do filme funciona como trilha perfeita para essa ideia. Versos como “Sorria mesmo que esteja quebrando”, “Esconda todos os vestígios de tristeza” ou “Sorria, para que serve chorar” exemplificam toda a tentativa moderna de esconder a dor e até fingir que ela não existe. Coringa, em certo ponto, é um vítima social, assim como toda a Gotham ao seu redor. Vítimas de uma cultura hedonista e coletivista, que tenta camuflar ao máximo as individualidades. O filme termina coroando esta ideia ao mostrar o Coringa, já no fim de sua metamorfose de doente mental para maníaco, pintando seu sorriso com sangue. Disfarçando o sofrimento com um sorriso falso. Muitos sintomas me levam a crer que padecemos da mesma doença que Gotham. Uma patologia que não atinge a psique, mas afeta o espírito.

 

Alguns críticos levantaram a possibilidade de toda a trama ser no fundo uma alucinação do personagem principal. Talvez minha teoria também o seja!

25 de Outubro de 2019

Por Vicente Alves