Hiroshima, 1945. Stanley Troutman/AP | Washington Post

Algumas das piores pessoas que conheci têm pós-doutorado no exterior. Algumas das melhores são semianalfabetas. O Brasil tem uma vasta gama de tipos criminosos, dos sem escolaridade aos com direito a cela especial – que geralmente não chegam usá-las. Diploma, como dizem da religião, não é atestado de caráter.

Tenho pena de quem pensa que a educação vai salvar o mundo. Eu não sou contra a educação, é claro. E quanto mais acessível, mais democrática ela for, acho melhor. Aliás, democrática é uma ótima palavra para o assunto, porque a educação dá poder. O ponto é justamente esse.

A história da humanidade mostra que nós – todos nós – tendemos à corrupção moral quando temos poder nas mãos. Repito: o ser humano é facilmente corrompido pelo poder. A educação, da maneira como se a entende hoje, confere conhecimento, e conhecimento confere poder. A ciência é uma ferramenta, que pode ser usada para o bem como para o mal.

O conhecimento pode ser usado para fazer o mundo melhor, sim. Mas pode ser usado para fazer apenas a vida do indivíduo melhor – frequentemente, em detrimento do bem-estar dos demais. A educação pode, infelizmente, estar a serviço da vaidade, da ambição e da perversão. Por deprimente que soe, pode mesmo.

Por exemplo, a ideia de que a educação daria destino diferente a criminosos é tola. Traficantes sairiam do crime, ou nem entrariam, se as periferias tivessem boas escolas? Talvez. Mas e as universidades europeias em que estudaram alguns dos nossos maiores bandidos, os de colarinho branco, será que são de qualidade? O erro da ideia aqui criticada tem raiz em duas crenças comuns (e falhas): estamos convencidos de que é o meio que nos corrompe, quando na verdade, a tendência à corrupção está em nós (o “meio” é feito de gente; quem corrompeu essa gente? Quero dizer, quem corrompeu o meio?); e de que o meio “corruptor” é necessariamente um com baixa média de escolaridade formal.

É claro que o conhecimento pode servir ao bem – é lindo quando acontece. Para tanto, a educação precisa dar a ferramenta com instruções de uso. Para não nos corrompermos com este poder, precisamos de formação ética e moral – percebo daqui o arrepio que esta palavra causa aos acadêmicos do nosso tempo.

A maior parte da nossa educação escolar e acadêmica é dissociada da moral e, portanto, de ideais morais como a busca pelo bem comum. Isso tem muito a ver com o discurso de “tolerância” moderno, que abole diferenças, principalmente as entre certo e errado. A consequência é que nossos métodos e mentalidade educacionais são individualistas e competitivos – vide os vestibulares. Fala-se pouco do que se pode fazer pelos outros com o conhecimento adquirido, e muito do que se pode fazer por si mesmo (“ganhar muito, trabalhar pouco...”). Incentiva-se a vaidade e se transforma universitários em “novos intelectuais” – a versão acadêmica do “novo rico” –, um tipo insuportável. E este é só um exemplo banal.

O conhecimento é um avião: pode transportar pessoas para lugares maravilhosos; pode lançar bombas que dizimam populações inteiras. A educação, sem os valores éticos e morais, é um avião sem radar, desgovernado: não vai salvar ninguém, muito pelo contrário. Aliás, o avião é um bom exemplo de como a ciência pode ser construtiva e destrutiva ao mesmo tempo.

 

Eu não acredito que a educação certamente vá salvar o mundo simplesmente porque ela “sozinha” não pode fazer nada; acredito que ela PODE contribuir para salvar o mundo, se for usada para esse fim. É preciso amestrar as mãos: formar a consciência junto, até antes, do intelecto.

6 de janeiro de 2020

Por Gustavo Lima