Um dos primeiros ensinamentos que recebemos ainda na infância -  e que é capaz de trazer a memória a voz dos nossos pais - sinaliza uma necessidade de segurança. “Olhe para os dois lados antes de atravessar!”. O mandamento repetido incansavelmente para crianças de 3 a 8 anos reflete o instinto, já cristalizado nos adultos, de proteção contra um perigo físico possível. No entanto, aquele indivíduo que absorve uma lição como essa é capaz de forjar o seu imaginário para um princípio moral: para alcançar um objetivo é preciso contemplar todas as faces da realidade.

Por mais pueril que seja um ensinamento como este sob a ótica de um adulto, quando trazemos para o campo da consciência transforma-se em um adágio indispensável. Pais ao verem seu filho atravessar uma rua qualquer de modo imprudente logo percebem que a ordem ainda não foi absorvida totalmente. Ainda não está claro que: é melhor demorar mais uns segundos para chegar ao outro lado do que correr o risco de não chegar. Se no trânsito a regra, mesmo que demore, costuma ser assimilada, na consciência pode ser que nunca aconteça. 

 

Não quero aqui colocar a culpa nos tempos modernos que imprimem uma aceleração da vida que não nos permite esperar alguns segundos a mais na calçada da reflexão. Mesmo sendo inegável esta influência, acredito que no marasmo medieval também haviam alguns apressadinhos. Mas vamos a questão! Todos nós temos certezas e pré concepções da maioria dos assuntos que chegam aos nossos ouvidos. Parte disso se dá por um apontamento das nossas consciências do que é certo e errado; parte por nossas preferências; e um outro terço por nossos sentimentos frente ao fato apresentado. Logicamente, cada um desses pontos foram (e são) influenciados por inúmeros fatores que aqui não nos interessam. Por isso, quando te perguntarem se o feijão vem por baixo ou por cima do arroz se questione por qual desses meios você constrói a sua resposta. Pode ser por acreditar que quem o faz de outra forma será condenado ao fogo do inferno, ou simplesmente por uma preferência gastronômica ou ainda pela lembrança de quando sua avó arrumava seu prato. 

 

O fato é: independente da certeza que tenho ela não passa de uma impressão até que eu tenha contemplado as faces da realidade. Percebemos a dificuldade de assimilação desta ideia quando nos vemos obrigados a nos posicionarmos sobre todos os assuntos assim que lemos uma manchete. 

 

Não tenho nada contra as primeiras impressões, até gosto delas. Tente lembrar do que você achou do seu melhor amigo no dia que o conheceu. Provavelmente, a lembrança será motivo de risos. Rimos pois sabemos que, em um primeiro momento, até aquele que é mais confiável pode parecer um babaca ou um chato em algum momento. Uma primeira impressão é sempre importante, afinal, precisamos partir de algo. Mas aquele que resolve ficar nela é como a criança que resolveu obedecer a ordem da mãe pela metade e só olhou para um lado da rua. Ele pode até chegar ao seu objetivo, mas será um tolo. Não olhar para o outro lado é sintoma de uma imaturidade que permite o indivíduo se render as suas certezas ao ponto de se amedrontar diante da possibilidade de haver algum obstáculo que o impeça de reafirmá-las. 

 

Nada impede que opiniões sejam dadas ao longo do processo. Longe de mim afirmar que estas devem ser propriedade dos especialistas. A preocupação é com a negação de um processo. Entretanto, o desejo de contemplar todas as possibilidades de um fato não deve nascer do desejo de provar aos outros alguma erudição. As únicas motivações que devemos nutrir são: não querer ser a criança mimada que deseja chegar a outra margem da via sem medir consequências; e fugir da possibilidade de se tornar o medroso que nega um lado da via para que a sua realidade imaginária não seja destruída. 

 

Os que insistem escolher a segunda opção costumam ser aqueles que, mesmo depois de se encontrarem da pior forma possível com o ônibus desgovernado da realidade, esboçam um sorriso ensanguentado pois pensam ser mais fácil chegar ao seu mundo mágico com o trânsito bloqueado. 

10 de janeiro de 2020

Por Vicente Alves